08 de julho de 2026
Articulistas

Uma cidade em prosa e verso

Tamara de S. Brandão Guaraldo
| Tempo de leitura: 2 min

“Os sentimentos mais genuinamente humanos logo se desumanizam na cidade”, escreveu Eça de Queirós em “As cidades e as serras”. Mas e se a cidade se transforma e através da poesia envolve seus moradores? É essa transformação pela poesia que acontece em Dois Córregos, onde ocorreu, em um final de junho, o III Encontro Internacional de Poesia, com a presença de poetas como Affonso Romano de Sant’Anna, Alice Ruiz, José Miguel Wisnik e a portuguesa Maria de Fátima Toscano.

“Essa idéia de trazer a poesia para o cotidiano me lembrou os tempos da ditadura em que o Serviço Nacional de Informação (SNI) fazia fichas e catalogava os nomes das pessoas consideradas subversivas. Eu acho que o governo deveria ter criado o Ministério dos Sonhos, um instrumento para saber como sonha o brasileiro, e o trabalho operacional seria outro. A Usina de Sonhos é, na verdade, a realização dessa proposta que eu havia feito”, comentou o poeta Affonso Romano de Sant’Anna, ex-presidente da Biblioteca Nacional, um dos criadores do Programa de Promoção da Leitura (Proler).

O evento, divulgado pelo JC, foi promovido pelo Instituto Usina de Sonhos, que reuniu os amantes da poesia em uma estância cercada pela natureza. A Usina de Sonhos é fruto do empenho do empresário José Eduardo Mendes Camargo, cuja paixão pela poesia o motivou a fundar o instituto em agosto de 1995, em Dois Córregos. O Instituto Usina de Sonhos busca envolver a comunidade local em projetos voltados à arte e à cultura, integrando atividades culturais ao ensino nas escolas, promovendo o interesse pela leitura e poesia. A direção está a cargo da professora Denise Carmesini Alves de Lima, coordenadora do Instituto. Os projetos acontecem com a participação de multiplicadores.

Na cidade de Dois Córregos, há rimas nos muros, nas placas e restaurantes, e até nos carnês de IPTU. Em uma sorveteria local, há sorvetes com nomes de poetas. Através do projeto “EntreVersos”, a poesia chega às escolas, ao presídio feminino, às empresas e aos trabalhadores locais. A transformação pela poesia é o lema do instituto, que pretende transformar a cidade em referência de uma forma poética de viver. “Nós somos uma cidade pequena, que tem vontade de crescer e muitas outras têm essa vontade também. E as pessoas nos perguntam: Como em uma cidade tão pequena vocês conseguem fazer um evento tão grande? Eu digo que é a força do povo, o sonho mesmo das pessoas que alimenta tudo isso, e que não pode morrer, é cultura e a gente sente essa necessidade”, completa Simone de Castro Segatim, multiplicadora do Projeto EntreVersos.

A autora, Tamara de S. Brandão Guaraldo, é jornalista e doutoranda em ciência da informação pela Unesp de Marília