08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Purgante da verdade


| Tempo de leitura: 4 min

Não podemos generalizar, mas vivemos numa sociedade que hipocritamente prega uma coisa e pratica outra. De cujo ventre social brota um numeroso exército de “Gersons”, que só pensam em levar vantagem, nem que para isso pisem no pescoço da própria mãe, prostituem suas convicções ou desgracem a vida de terceiros ou daqueles que mal possam se defender.

É deste tipo de sociedade que se materializam e surgem os autores desta verdadeira diarréia de escândalos políticos e administrativos que ocorre no Senado Federal e não muito diferente nos outros poderes constituídos, basta fazer uma investigação profunda.

É difícil admitir, mas, na realidade, o Brasil verdadeiro se transformou numa cachoeira de excrementos. O Brasil honesto e sonhador ainda existe no ato daquele faxineiro do aeroporto de Congonhas que achou R$ 20 mil numa maleta e entregou para o verdadeiro dono, alegando que não conseguiria dormir ao ter consigo coisa que não lhe pertencia. No entanto, esse conluio de improbidades administrativas, mentiras e patifarias navegando sobre uma decência fingida das prostitutas políticas e sociais podem atingir até esses bons segmentos.

A nossa realidade é feita de pântanos fedorentos e lamaçais. Nada vai mudar se muitos ficarem com esta pureza escandalizada e omissa de classe média alta que se tranca em fortalezas, acomodam-se nos sofás e só criticam através de e-mails, ou seja, sem prática nenhuma. Deste tipo de comportamento surge o comentário daquele deputado bandido que falou que estava “se lixando para a opinião pública”.E a absolvição daquele deputado federal canalhocrata do Castelo.

A classe política, não podemos generalizar, por ser a grande cafetina do nosso bordel administrativo deve pagar um preço maior quando pratica a corrupção, mesmo porque, por mais imperfeita que seja a sociedade, é dela que sai o salário dos homens públicos. Entretanto,muitos dos cidadãos que criticavam as falcatruas e as mazelas da política,quando chegaram no poder se transformaram em iguais ou piores. A prova disto é que nossos trisavôs já diziam que todos políticos não prestavam e por que até agora teve poucas mudanças? Porque é da própria sociedade que eles vêm e por causa dessa filosofia hipócrita do “faça que digo, mas não faça o que faço”. Ao invés de uma nação forte, poderemos nos transformar num autêntico conto do vigário.

A corrupção, a mentira , a traição do dia a dia e a falsidade não são pecados no nosso meio social. É uma macabra normalidade. Nosso processo histórico chafurda na exploração e na extorsão. O nosso discutível progresso não pode ser construído pelas migalhas que sobram das negociatas das obras bancadas com o dinheiro público. A roubalheira é nosso leque e compõe uma paisagem falsa, constituída de viadutos inacabados, atos secretos do Senado, escândalo na merenda, assessores fantasmas, viagens turbinadas, propinas e prisões de policiais civis, militares e outros.

De eleição em eleição, as faces do sistema pouco mudaram para que tudo ficasse igual. Moralidade virou sinônimo de inocência. Ser honesto virou característica de otário. Os nossos corruptos, sejam eles da política, da polícia, dos poderes constituídos ou da sociedade, são confiantes. Deixam pistas óbvias, não por burrice, mas sim pela fé em setores de um Estado protetor e patrocinador da impunidade dos que têm dinheiro ou excelentes advogados.O ladrão de cinco penosas, digo galinhas,ainda está em cana lá em Araraquara.No entanto, o poderoso chefão Daniel Dantas e mais de 800 pessoas que a Polícia Federal prendeu por desviarem verbas públicas não ficaram nem três dias presos e foram imediatamente soltos pelos tribunais superiores. Oras, somos todos iguais perante a lei...

Temos que discutir o estágio de escândalos que a Nação como um todo passa e não adianta taparmos o nariz e sonharmos com a pureza. A infecção social e política é gritante e pode se generalizar.O respeito pela coisa pública é péssimo para os que se alimentam e criam suas proles beneficiando-se da zona da improbidade. Mas devemos festejar e não se deprimir neste exame de fezes pelo qual passa a sociedade. É bom porque entre vermes e bactérias poderemos ver o nosso avesso sujo. Quem sabe as impurezas que serão tragadas pelo vaso da realidade seja o início da nossa salvação.Mesmo porque sempre foi assim , mas é só agora que tudo está vindo à tona. Menos mal, quem sabe o purgante da verdade seja nossa solução.

Pedro Valentim