10 de julho de 2026
Articulistas

O ofício da resiliência

Ângela Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

A palavra é tão bonita que tive de me conter pra não usar o jargão “a arte da resiliência” no título. Mas arte definitivamente não é, é ofício mesmo. Dá um trabalho danado ser resiliente. Para satisfazer os teóricos, a resiliência é a capacidade do indivíduo de suportar o sofrimento ou uma fase crítica sem se destruir, desenvolvendo uma visão menos imediatista, fortalecendo sua fé no futuro ou em um ser superior, mas com plena segurança de que a fase ruim vai passar. E, para satisfazer os pragmáticos, é a capacidade de agüentar mesmo o baque, levantar, sacudir a poeira e continuar em frente.

Tá bom, os especialistas em recursos humanos têm algumas outras abordagens para esse conceito, até porque a palavra agora é moda nas corporações, mas ficaremos com essa: o conceito vem resgatar a força interior que sumiu quando ganhamos - aos 5 anos de idade - o direito de exigir dos nossos pais, e da vida, aquilo que queríamos e pronto. Tá bom, soou meio fascista, mas convenhamos: muitos de nossos pais protestaram, legitimamente, contra a ditadura de seus próprios pais, dando-nos a tão sonhada liberdade que toda criança deveria ter. O problema é que a tal liberdade nada mais foi do que passar o bastão da ditadura para os filhos, que em conseqüência, perderam sua própria resiliência, aquela que lhes mostraria que sobreviveriam a um “não”. Ou a um “agora não”. E os filhos do “agora sim” cresceram, trazendo para dentro das corporações suas ansiedades, suas visões de curto prazo, suas exigências de que a empresa suprisse suas carências com a mesma urgência que seus pais o fariam. E quando elas não o fazem, pulam de galho em galho, de empresa em empresa, alimentando uma expectativa quase infantil de que um dia encontrarão o emprego de seus sonhos. E essa busca tem um preço: frustração e insegurança, ou seja, exatamente o contrário do que queriam.

Dias desses, encontrei uma amiga de infância. Ela e o marido atravessam uma fase difícil que já dura cinco anos, me contou. Estranhei: fases ruins não costumam durar tanto. Perguntei o motivo e me espantei: eles não conseguiam se manter empregados por muito tempo. No discurso dela, o emprego não era bom, então saiu. O marido também, estava ganhando pouco, então saiu. Gente! Tudo bem que a juventude nos ensina a lutar pelos nossos sonhos, mas será que não havia jeito de agüentar o emprego ruim por um tempo e ir batalhando mobilidade dentro da empresa? Será que não dava pra agüentar o salário baixo enquanto se batalhava por oportunidade mais promissora? Não! Não gostei! Prefiro ficar em casa, embirrada - imaginei sua fala. Mas havemos de convir que sua falta de resiliência não era intencional e nem de má fé. Vestia o pensamento inocente de que estava assim batalhando por uma vida melhor.

A mesma falta de resiliência podemos conferir no número de divórcios que, segundo o IBGE, subiu 44% entre 93 e 2003. Se o cônjuge não era exatamente aquilo que se esperava, tchau. Tá bom, fala-se na crise dos sete anos, mas isso era no tempo em que a resiliência era tirana. Pede pra um jovem agüentar sete anos se a esposa não for uma princesa ou se o marido for um sapo... Sem chance. Estou defendendo que a gente tenha que se conformar com a infelicidade? De jeito nenhum. Aí entra a tirania que a resiliência já impôs no passado, nos casamentos que obrigatoriamente deveriam durar para sempre, nos empregos que deveriam ser vitalícios, não, não é desta resiliência que estamos falando. Bem-feito pra ela, também, que exagerou a dose. Até a Igreja teve que interferir prometendo um paraíso pra depois, senão ninguém agüentava viver. Não, sem apologia ao sofrimento, pelo amor de Deus. Mas também não podemos ir ao extremo oposto, mimadamente, exigindo felicidade a todo custo e pagando por ela o preço de recomeçar tudo do zero, sempre, para parar na primeira contrariedade, ou no primeiro defeito do parceiro.

Dor por dor, agüentemos um pouco a fase ruim, enquanto buscamos soluções. Ela passa. E, sobrevivendo a ela, perceberemos o quanto somos muito maiores do que as adversidades. Um pouco de fé no futuro, ou esperança, ou paciência não faz mal a ninguém. E ensina aos nossos filhos que ser resilientes enquanto a bicicleta nova não vem ainda é uma grande virtude.

A autora, Ângela Moraes, é jornalista e especialista em marketing estratégico - e-mail: anjeramoraes@hotmail.com