Botucatu - A morte de um vendedor de ração de 28 anos causada pelo vírus influenza A (H1N1), conhecida de gripe suína, em Botucatu (100 quilômetros de Bauru), a segunda no Estado de São Paulo e quarta no país, pôs abaixo as exigências fundamentais para considerar casos suspeitos, o contato com pessoas doentes ou viagem para países como Argentina e Chile onde o vírus circula. Assim como o caso da menina de 11 anos que morreu em Osasco vítima da mesma doença, a falta dos preceitos fundamentais dificultou o diagnóstico, causou a morte e disparou outros procedimentos para o diagnóstico precoce.
O paciente que morreu após ser infectado elo vírus da influenza A (H1N1) em Botucatu tinha obesidade mórbida, segundo informação da Secretaria de Saúde da cidade. A obesidade tem como um de seus reflexos a dificuldade de respiração, o que pode ter acelerado a piora da doença.
A partir de ontem, no município e na região são suspeitos os portadores de doenças respiratórias graves, pacientes com quadro gripal agravado pelos outros sintomas, como dor de cabeça, febre e quadro sugestivo de pneumonia, explica o secretário Municipal da Saúde, Antônio Carlos Macarelli. “Mudou os procedimentos. Não vamos mais ficar atrás de casos de gripe e sim de pacientes que tenham doenças respiratórias graves.”
Para o médico infectologista e docente do Departamento de Doenças Tropicais e Diagnóstico por Imagem da Unesp, professor Carlos Magno Fortaleza, o caso do morador de Botucatu desafia aquilo que se tinha como preceito fundamental para considerar o caso suspeito. “Era o contato com alguém que tivesse a doença. Não identificamos qual foi o contato. Isso tornou o caso de diagnóstico mais difícil. Muda tudo em relação ao diagnóstico não consideramos mais a necessidade de uma viagem ou contato com alguém como um risco.”
O médico acha que é preciso ter cautela e aguardar para ter mais conhecimento. “Saber onde esse paciente adquiriu a doença. Porque é possível que haja focos da doença, esses focos certamente ainda são pequenos. Basta considerar que no Brasil temos 4 casos fatais e no Uruguai, um país pequeno e pouco populoso tem 10 casos fatais. Estamos ainda com uma circulação muito limitada no país.”
Na opinião dele, a população não precisa entrar em pânico e nem sair usando máscaras. “Precisamos reforçar a nossa vigilância. Isso quer dizer, conhecer melhor os casos de doenças respiratória graves na nossa região para que a gente trace de uma maneira adequada o mapa da doença. O itinerário do botucatuense precisa ser esclarecido para saber onde ele adquiriu a doença, uma vez que ele circulou em vários municípios da região e no litoral.”
O médico admite que é um desafio para a Vigilância Epidemiológica do Estado e do município identificar os deslocamentos desse paciente e as pessoas com o qual ele teve contato. “Preocupa não saber onde ocorreu o contágio.”
De acordo com o secretário, a vigilância epidemiológica do município já tinha feito uma visita à família do vendedor. “Os agentes fizeram uma busca na família porque ele tinha sido internado com vários diagnósticos, um deles de hantavirose. Descobrimos que ele havia estado em Itatinga, Bofete e, em um hotel, em Ubatuba, onde ele contou para a mãe que teve contato com argentinos e chilenos. Avisamos a Secretaria de Saúde de Itatinga.”
Na família do vendedor não há pessoas com sintomas de gripe, segundo o secretário. “Ele freqüentava uma igreja e nós vamos lá conversar com os fiéis. A transmissão ocorre nos sete primeiros dias dos sintomas e nesse período ele pode ter transmitido para alguém que, em tese, pode ter transmitido para outro e assim por diante.”
Para Macarelli, em tese, o vírus está circulando no município. “Isso não é motivo para pânico. Estamos tomando medidas e qualquer eventualidade vamos desencadear ações pontuais. Mesmo antes da morte já estávamos tomando providências. As agências de turismo foram avisadas para mandar uma lista das pessoas que viajaram para fora do país e daquelas que estamos recebendo nos congressos das universidades. Agora muda de figura porque teve um óbito. Tem que fazer isso e mais.”
Na opinião dele, já deve ter tido casos sub-clínicos. “Foi feita uma pesquisa em São Paulo. Dos pesquisados, 51% resultou em negativo e 23% positivou para o vírus influenza A. Não temos que ir atrás de todos os casos de gripe, mas encontrar aqueles com sintomas mais graves.”
HC está pronto
O superintendente do Hospital das Clínicas, professor Emílio Carlos Curcelli, frisou ontem que o HC tem planos A, B e C para atender as necessidades que posssam surgir. “Temos estrutura para atender os pacientes. O HC tem uma estrutura de funcionabilidade que pode ser adaptada. A estrutura de pronto-socorro atende a necessidade atual. Evidentemente que vislumbrando uma necessidade vamos mudar a maneira de atendimento. Não há nenhum problema em relação a capacidade operacional de atender os casos se eles se avolumarem.”
____________________
Doença não tem preferência de idade
Para o infectologista Carlos Magno Fortaleza, é preciso ficar claro que a gripe A (H1N1), conhecida de gripe suína, é uma doença que, na maioria dos casos, tem um curso como uma gripe comum. “Na maior parte dos adultos jovens, sem doenças prévias, ela cursa como uma gripe comum, esse é o ponto fundamental da prevenção. O que precisamos de fato é ter um foco nas doenças respiratórias graves, pessoas que tiverem febre, dor de garganta precisam procurar o médico. Se elas fazem parte desse grupo de maiores de 65 anos, se for criança menor de dois anos, gestantes, ou já possuem doença crônica devem ter mais cuidado.”
A recomendação é procurar a atenção médica o mais rápido possível. “O médico saberá identificar os casos com tendência a evolução mais grave. Ele vai encaminhar aos hospitais de referência. Em Bauru, é o Hospital Estadual e em, Botucatu, o Hospital das Clínicas. O médico identificará a necessidade ou não do antiviral.
O vírus influenza comum é pior nas pessoas acima de 65. “Embora a vacina não seja eficaz contra esse vírus, que está circulando agora, ela é importantíssima para os demais vírus que também causam quadros graves.
Alguns grupos como gestantes, obesos ou pessoas com doenças pulmonares tem mais tendência a evoluir com gravidade.”
Todas as faixas etárias da população são alvos do vírus, segundo o secretário da saúde municipal. “Os menores de 2 anos, idosos acima de 65 e gestantes. A obesidade pode influenciar, porque o obeso já tem dificuldades respiratórias, doença de base.”
O infectologista explica que na gripe comum estima-se que a letalidade varie de 0,1 a 0,4% para os maiores de 65 anos, enquanto que na gripe suína a taxa de letalidade está por volta de 0,4 % em todas as faixas etárias.
“Portanto não há grupos considerados de riscos. Tínhamos uma doença que causava quadros graves restritos a idosos. Temos agora uma doença causando casos graves em muitos jovens essa é a grande diferença entre a gripe comum e a suína.”
Mais um caso confirmado
O professor Carlos Magno Fortaleza confirmou mais um caso de gripe suína no município de Botucatu. “Este caso é de uma pessoa que teve contato com um paciente confirmado, porém não com o vendedor que morreu. A pessoa já está recuperada. “O que não significa que os suspeitos atendidos aqui, aproximadamente 12, anteriormente não fossem casos. Apenas eles não podem ser confirmados. Alguns tem até exames colhidos mas estão no Adolfo Lutz aguardando resultado. Temos um outro caso suspeito internado no HC.”
Para o médico infectologista Ricardo Augusto Monteiro de Barros Almeida, que atendeu o vendedor, explica que o primeiro contato dele com o paciente aconteceu três dias após a internação. “Ele foi internado sem um quadro grave associado. Tinha gripe, um pouco de tosse, dor muscular, febre há três dias. O que foi difícil foi identificar essa relação. Ele não tinha tido contato com pessoas doentes.”
Várias investigações laboratoriais foram feitas no paciente. “Investigamos laboratorialmente vários diagnósticos enquanto ele estava vivo. A gente investigou até a pesquisa de HN1 Humano que é o influenza sazonal. Fizemos um teste rápido mas, infelizmente deu negativo, o que pode acontecer. Apesar de todos os tratamentos empíricos que nós fizemos, o paciente não melhorava. Ele não chegou a fazer o uso do antiviral, porque o quadro não preenchia os critérios quando internou”, informou Almeida.
Segundo ele, quando o quadro piorou já tinha passado quase cinco dias. “ O Ministério recomenda que esse tratamento seja realizado até 48 horas dos primeiros sintomas.”
O médico ressalta que todos os casos suspeitos, pessoas que tiveram contato com o vendedor estão sendo investigadas. “Se a gente observar adota as condutas. Casos graves, interna e tratar como se fosse, até o resultado do exame.”
A medicação usada indiscriminadamente pode causar resistência viral, alerta o infectologista. “Os pacientes estão procurando. Estamos recebendo pessoas que tiveram contato com o vendedor. Estamos olhando caso a caso. Se a gente entrar com medicação para todos, vamos encontrar resistência viral, já temos casos de resistência viral. Precisa selecionar bem”.
____________________
Em Marília, caso suspeito deu resultado negativo
Marília - O Instituto Adolfo Lutz informou na tarde de ontem que os resultados de exames, realizados em suspeitos de terem contraído a gripe suína e que residem em Marília (100 quilômetros de Bauru), deram negativo. Com isso, a Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal da Saúde contabiliza cinco resultados negativos dos seis casos suspeitos até o momento.
Os resultados desses exames referem-se a uma criança de 3 anos, cujo pai havia viajado para a Espanha, em junho, e que também estava com suspeita da doença; e de uma mulher, residente no Jardim Eldorado, que viajou para a Argentina.
A equipe da Vigilância Epidemiológica continua aguardando o laudo do exame coletado e enviado para o Instituto Adolfo Lutz, de São Paulo, de um paciente do sexo masculino, 38 anos, que nos sete dias anteriores ao início dos sintomas viajou, de avião, para municípios dos estados: Rio de Janeiro, Rondônia e Bahia. No Estado de São Paulo, ele passou pela Capital e por Barra Bonita. Segundo relato de familiares, o paciente teve contato com estrangeiros nessas viagens de trabalho. Ele encontra-se hospitalizado.
Mudança
A Secretaria Municipal da Saúde deverá reunir, novamente, profissionais médicos e enfermeiros da Rede Básica de Saúde, para explicar as mudanças determinadas pelo Ministério da Saúde para o enfrentamento da contaminação pelo vírus H1N1.
De acordo com o novo Protocolo de Manejo Clínico e Vigilância Epidemiológica da Influenza, publicado no dia 8 de julho, somente serão coletados exames dos pacientes com doenças respiratórias agudas graves, e surtos de Síndrome Gripal em ambientes fechados/restritos.
A Vigilância Epidemiológica deverá realizar ampla campanha de divulgação nas escolas, no comércio, nas indústrias etc., sobre os cuidados de prevenção e a orientação para encaminhamento dos doentes à unidade de saúde mais próxima, o mais rapidamente possível.