08 de julho de 2026
Cultura

Baixinha, dentuça e bauruense!

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 4 min

Mais de 200 personagens, um bilhão de revistas vendidas e obras publicadas em 126 países são os números que contam a trajetória de meio século de carreira de Mauricio de Sousa, completados, exatamente, ontem - data, em 1959, que saiu publicada sua primeira tirinha. Para celebrar, o desenhista preparou uma série de novidades, que serão lançadas ao longo de um ano.

Parte dessa história, Bauru está nas recordações e traços do - sem medo de errar - maior cartunista do Brasil. Além dos dois anos que morou na cidade, foi também aqui que o desenhista “concebeu” uma de suas personagens mais famosas. Os traços da ‘baixinha dentuça’ - agora embaixadora da cultura no Brasil - foram inspirados em Mônica, filha de Mauricio nascida em Bauru. “Guardo as melhores recordações de Bauru e ainda levei, de presente maior, minha filha Mônica”, afirma o cartunista em entrevista ao JC Cultura.

O lado pacato de se morar no Interior, o carinho pela vizinhança e as brincadeiras de rua são também antigas lembranças da cidade que Mauricio transportou para os quadrinhos. “A ruazinha de terra e de grama (mais grama) em que eu morei, faz parte dos traços em muitas das minhas histórias. Juntamente com Campinas, onde minhas outras filhas cresceram. Em ambas as cidades, o local de moradia permitia às crianças brincarem na rua, terem seus amiguinhos ao alcance de poucos metros, uma beleza. Saudades”, recorda o pai de dez filhos.

Diante da pouca idade no tempo em que viveu em Bauru, Mônica emprega as lembranças do pai para remontar os primeiros anos de infância. “Ele recorda direitinho de tudo: de como era a casa, a vizinhança. E conta com tantos detalhes que parece até que você viaja até o lugar. Mesmo sem conhecer direito a cidade, tenho imagens guardadas pelas histórias que ele conta, sempre com tanto carinho”, conta.

Cinco décadas

Aos 73 anos de idade, Mauricio de Sousa completa 50 de carreira cheio de novos projetos. Exposições, exibição de documentários, lançamentos de filmes, livros e até de CD compõem a série de trabalhos que marcam as comemorações de aniversário.

“Ele está eufórico e curtindo muito. Ele participou ativamente desses projetos, fazendo questão de procurar e selecionar as tiras antigas, as fotos, a escrivaninha usada na época. Para ele e para mim, que não participei com lembranças do início da carreira, significa voltar no tempo e rever toda a história dele. Foram muitas as dificuldades nesse caminho, mas ele nunca deixou de acreditar no que estava fazendo”, conta Mônica Spada e Sousa, filha do cartunista, que há 30 anos trabalha com o pai.

Sem data nem vontade de parar, Mauricio diz ser o carinho do seu público - que já soma três gerações - o seu incentivo. “Olho para essa história de 50 anos e vejo que nossa responsabilidade aumenta muito. São três gerações de leitores que acompanham a vida de nossos personagens. Todo esse carinho tem que ser correspondido com histórias criativas e divertidas. É o que nos guia e sempre guiará. Tudo isso nos comove e dá combustível para os próximos anos”, completa.

____________________

Nova embaixadora da cultura

Mônica tornou-se uma das mais famosas personagens de Mauricio de Sousa e símbolo de todo o seu trabalho. Convocada para ser a embaixadora da cultura no Brasil - cargo somado aos de embaixadora da Unicef e do turismo -, a baixinha dentuça tem como uma das razões de seu sucesso a grande identificação do público, segundo a também batizada Mônica, filha do desenhista e inspiração para a personagem.

“A Mônica tem uma personalidade forte e demonstrava o que estava acontecendo com a mulher na época, que queria uma posição no mundo melhor do que era antes. Eu acredito que ela teve esse sucesso todo por conta da identificação do público com ela, afinal, acho que todo mundo tem alguém na família que pareça com a Mônica”, considera.

Também de personalidade forte, a filha do cartunista diz ser essa a sua principal identificação com a personagem. “Eu tinha 2 anos e ele já havia percebido essa minha característica. Ele e minha mãe contam que eu era a mais briguenta da casa. Minhas outras irmãs, quando tinham algum problema na rua, nas brincadeiras, saíam chorando; eu não, já resolvia ali mesmo o que tinha que ser resolvido”, diverte-se. “Minha filha seguiu o mesmo caminho: não leva desaforo para casa e é assim até hoje”, completa.