09 de julho de 2026
Bairros

Recantos em meio à grande cidade

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 5 min

Viver bem. Este é o objetivo das pessoas que procuram uma casa para comprar ou até mesmo alugar. Nessa hora, conforto e segurança para a família toda contam muito. Em Bauru, muitas famílias afirmam ter encontrado o lugar certo e não abrem mão de continuar morando onde estão. Maior da região, a cidade chama a atenção por seus grandes edifícios, que se multiplicam a cada ano numa velocidade cada vez maior.

Longe desses arranha-céus, muitas famílias afirmam morar bem e viver melhor ainda em casas e sobrados construídos em pequenas travessas e becos espalhados pela cidade. A maior parte dessas construções possui mais de meio século de existência, outros são empreendimentos novos seguindo uma tendência que ganha força nas grandes cidades e que há muito tempo deixou de ser novidade em países europeus.

Na correria do dia-a-dia, muitas pessoas passam por essas travessas, becos e sobrados sem perceber a calma e a tranqüilidade que é possível encontrar nesses locais. Escondidos entre uma avenida e outra, grande parte desses endereços está perto da área central, como a avenida Duque de Caxias e as ruas Quinze de Novembro e Bandeirantes. Ruas sem saída ou com apenas um quarteirão abrigam um conjunto de sobrados com arquitetura idêntica que tomam conta de uma, duas ou três ruas.

Grande parte desses becos e travessas foi criada quando a cidade e os bairros ainda eram formados. É caso das casas construídas na Travessa da Liberdade, no Centro da cidade. No local não existem mais de dez casas construídas, uma delas transformada em arquivo de documentos de uma entidade em operação em Bauru. Com exceção de duas residências, as outras mantêm as características do projeto original. Os moradores mais antigos afirmam que o local foi construído há mais de 80 anos. A travessa fica na quadra 11 da rua Quinze de Novembro, uma das mais movimentadas da cidade.

Travessas

Outra travessa localizada na área central de Bauru é a Aurélio Orsolini, na quadra 4 da rua Bandeirantes. Lá, construções antigas são reformadas ou dão espaço para novos projetos. Os moradores mais antigos se misturam aos que chegaram ao local há pouco tempo. Dirce Fernandes Tavares reside lá há quatro anos. Já Josefa de Souza Lenoti adquiriu a casa onde mora há 46 anos. Ela conta que as casas da travessa já existiam há muito tempo quando se mudou para lá.

“Na verdade, tudo aqui foi construído para abrigar os funcionários da Tilibra. Depois de muito tempo, foram chegando outras pessoas que nada tinham a ver com a empresa”, relata.

A versão contada pela moradora mais antiga da travessa Aurélio Orsolini tem fundamento. No início do século passado, as empresas que atuavam em Bauru tinham por costume construir e oferecer moradia a seus funcionários. As empresas que atuavam na estrada de ferro chegaram a construir bairros inteiros para abrigar funcionários, desde os que ocupavam os mais simples cargos até o alto escalão.

A Vila Curuçá, que surgiu em meados dos anos 30, foi construída pela Noroeste do Brasil (NOB) para abrigar seus funcionários. Na época, o presidente da empresa determinou a construção de diversas casas no local. A vila existe até hoje, mas mudou de nome e passou a ser conhecida por Vila Dutra. Mesmo assim, diversas construções foram reformadas e outras tiveram seu projeto principal alterado, mas ainda resistem ao tempo.

Uma característica desses locais é amizade entre os moradores. Os moradores dessas travessas e pequenos becos preservam laços de amizade entre si. “Aqui a gente conhece todo mundo e sabe quem mora em cada residência, até mesmo os mais novos a gente procura logo conhecer”, conta Neuza Uyherara, moradora da Travessa da Liberdade.

Ela exalta esse contato que existe entre os moradores. “A gente se sente bem assim. Como todos se conhecem, sempre que alguém viaja ou vive sozinha a gente fica de olho no movimento de pessoas na casa. Um garante a segurança do outro aqui”, garante.

Jesus Rodrigues Gonzales e José Nilton de Oliveira vivem num conjunto de sobrados existente na Vila São Jorge, entre as avenidas Duque de Caxias e Cruzeiro do Sul. No total são 80 sobrados construídos “parede e meia”, que ocupam duas ruas oficiais e duas particulares. “Não tem quem não se conheça aqui, uns mais outros menos, mas existe uma integração e um laço de amizade muito grande entre a gente”, explica Gonzales, que reside no local há 17 anos e garante que não abandona o local por dinheiro nenhum.

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Esquecidos pelo município

Nem tudo são flores para quem vive nos diversos becos e travessas existentes em Bauru. Apesar da tranqüilidade e da convivência harmoniosa com os poucos vizinhos, os moradores reclamam da falta de infra-estrutura nesses locais.

Angela da Cruz dos Santos vive há 60 anos na travessa Volpe, localizada na Vila D’Aro. A filha Leonildes dos Santos nasceu e cresceu lá, atualmente mora com sua família ao lado da casa dos pais. “Viemos morar aqui quando as ruas eram de terra e todas as casas eram ocupadas”, relata a mãe.

Hoje algumas casas estão fechadas, mas quem vive no local reclama do abandono por parte da administração pública. Leonildes dos Santos relata que há muito tempo o asfalto é solicitado para os pouco mais de 100 metros da travessa, que ainda tem a passagem revestida por paralelepípedos que, se os moradores deixarem, são tomados pelo mato. “Asfalto aqui só nos remendos feitos pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) quando a tubulação de água ou esgoto estoura”, ironiza.

Tanto a mãe quanto a filha reclamam de nunca terem tido a oportunidade de ter uma calçada em frente à casa. “É muita promessa e conversa, e pouca ação” reclama Angela. Apesar do aparente abandono do local, as moradoras dizem não abrir mão de morar lá. “Nasci e vivi a minha vida inteira aqui, apesar do abandono em que o lugar se encontra, a tranqüilidade e a paz que a gente tem aqui são difícieis de encontrar mesmo no bairro mais sossegado de Bauru”, afirma a filha.