Há um ano, Simone Gimenes alugou um dos 80 sobrados idealizados e construídos, segundo os moradores mais antigos, por Edmundo Coube, na Vila São Jorge, há quase 40 anos. Ela, que vive com o marido e o filho no local, já pensa em adquirir o imóvel que tem sua frente voltada para uma das duas ruas particulares existentes no conjunto. “Nos adaptamos muito bem aqui. O local é tranqüilo, já conheço vários moradores, mas tenho mais contato com os meus vizinhos”, relata.
Gimenes é só um dos vários exemplos de quem não abre mão de morar no local. Jesus Rodrigues Gonzales chegou em Bauru vindo de São Paulo há 17 anos e, desde então, sempre residiu no local. “Não abro mão de morar aqui; minha casa não tem preço”, afirma.
Outro morador, José Nilton de Oliveira, alugou uma casa na Vila São Jorge há 12 anos. “Dá uma olhada como o bairro é tranqüilo. Sem registrar problemas há muito tempo, o local se valorizou muito”, conta. De acordo com os moradores, quem quiser adquirir um dos sobrados construídos há quase quatro décadas, irá desembolsar entre R$ 80 mil e R$ 120 mil, de acordo com as condições de conservação do imóvel.
Os sobrados são geminados (ou seja, casas construídas lado a lado, geralmente com as mesmas divisões internas), mas a possibilidade de ouvir tudo o que acontece na casa do vizinho ou de perder a privacidade não incomoda os moradores. “O que mais importa é a tranqüilidade. Por não ter garagem, a gente deixa os carros nas ruas e tem sempre alguém de olho”, garante Maria Mendes Vieira Paiz, legítima portuguesa que vive no local há mais de 15 anos.
Amizades
Além de conhecer boa parte das famílias que moram no local, Maria Paiz ainda tem o prazer de ter a filha morando “parede e meia” ao seu sobrado. Ou melhor, sua filha, Filomena Paiz de Oliveira, é quem tem esse prazer, já que é ela quem vive há mais tempo no bairro.
Paiz conta que morava em outro bairro da cidade, mas que ao visitar a filha que já morava em um dos sobrados, se encantou pelo local e ganhou de outra filha a casa para morar. “Como sou idosa e moro sozinha, aqui é o local ideal para viver”, garante.
Como ela é uma das primeiras moradoras do conjunto de sobrados, construídos no início dos anos 70, Filomena sabe a história certa do local. “Na verdade, era uma espécie de consórcio feito pela família Coube, ele construía e entregava pronto para os consorciados”, relembra.
Cada sobrado tem três quartos, sala, copa, cozinha, banheiro, lavanderia e área de serviço. “Faltou apenas a garagem, mas na época, carro não era uma coisa tão normal quanto é hoje”, explica Filomena, que acredita numa desvalorização do imóvel pela falta da garagem.
Mesmo fora desses condomínios conjugados, quem vive em pequenas travessas e becos pela cidade também garante viver bem e não querer sair do local. Neuza Uyheara vive há 16 anos na Travessa da Liberdade, localizada na quadra 11 da rua Quinze de Novembro. Ela conta que antes morou em outra casa na mesma travessa, mas foi destruída para a construção de um estacionamento. Atualmente o local conta com exatamente dez casas, incluindo uma que foi transformada em arquivo de documentos.
“Quando minha casa foi destruída, fui morar em outro bairro, mas consegui voltar a morar aqui. Tenho muitos amigos, e conheço desde os mais antigos aos novos moradores”, afirma. Uyheara prova isso ao falar o nome de quem reside em cada casa da travessa. “A gente se conhece demais, tem um laço de amizade que não se encontra facilmente por aí, até mesmo com os mais novos”, garante. De acordo com a moradora, quando um sai, o outro sabe e fica de olho para garantir a segurança do imóvel.
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Apesar da tranqüilidade relatada, moradores investem na segurança
Apesar da tranqüilidade e da segurança serem relatadas por quase todas as pessoas que vivem nos sobrados em travessas e becos espalhados pela cidade, a maioria investe em algum tipo de segurança. Como a maior parte de quem vive nesses sobrados são pessoas de idade mais avançada ou que vivem sozinhas, é comum ver grades nas janelas, cerca elétrica e câmeras de monitoramento.
“Apesar da pessoa ter que entrar por onde saiu, o que uma pessoa sozinha e de idade avançada pode fazer em caso de um assalto?”, questiona Dirce Fernandes Tavares, moradora da Travessa Aurélio Orsolini. Para reforçar a segurança, as grades nas janelas estão em quase todas as casas.
Na Vila São Jorge, além das grades nas janelas em quase todos os sobrados, cerca elétrica e câmeras também foram instaladas. “Vivemos numa cidade grande, não podemos ‘dar mole’”, diz José Nilton de Oliveira.
Maria Mendes Vieira Paiz, moradora da Vila São Jorge, lembra que já teve seu sobrado assaltado. “Estava vendo TV e um homem entrou, me dominou e levou o dinheiro que tinha na carteira, acho que R$ 50,00”, conta. Mesmo assim, ela afirma que lá é bem mais seguro do que viver num local “comum” da cidade.
Alguns moradores defendem a colocação de portão eletrônico na entrada das travessas e becos. “Não tem comércio, nada de interesse geral , só entra aqui quem reside ou tem parentes no local”, defende um morador. “A manutenção quem faz aqui somos nós mesmos”, completa.
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Idas e voltas
Na travessa Orsolini, que fica na quadra 4 da rua Bandeirantes - área central da cidade -, construída para abrigar os trabalhadores da Tilibra, duas vizinhas têm histórias interessantes no local. Dirce Fernandes Tavares conta que morava no Jardim Bela Vista e que há quatro anos alugou o sobrado no local. “Aqui encontrei a segurança e a tranqüilidade que procurava”, afirma.
Ela conta que conhece todos que moram na travessa. “Os primeiros proprietários já não vivem mais aqui, mas o clima de cordialidade existente entre os vizinhos não se vê mais por aí”, brinca.
Já a vizinha Josefa Souza Lenoti, devido à sua profissão foi obrigada a deixar o imóvel por diversas vezes. Certa vez, ao visitar uma família de amigos, viu que a casa ao lado estava à venda. “Não tive dúvidas. Já sabia da tranqüilidade e da segurança de morar no local e convenci meu marido a vender nosso imóvel e comprar a casa que se encontrava vazia.”