09 de julho de 2026
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Obama lá, Lula aqui

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Nos Estados Unidos, o risco de complicações na economia em função da crise financeira diminuiu muito pouco apesar de todo o empenho do Tesouro e do carisma extraordinário do Presidente Obama. Ainda são dramáticas as implicações do terremoto financeiro na economia real, na situação do emprego e no bem-estar da sociedade americana.

É verdade que, depois do esforço monumental (gastos da ordem de um PIB americano), o sistema financeiro dá alguns sinais de que está voltando a funcionar: os “spreads” do mercado interbancário estão se aproximando dos níveis de antes de setembro do ano passado. Mesmo na economia real já existe a esperança de uma recuperação do terceiro trimestre em relação ao segundo e uma melhora no déficit nas transações correntes. Não é certeza, mas uma razoável expectativa quanto a essa situação no curto prazo. Sobre o que há certeza é o crescimento do imenso déficit público pelos próximos anos e o enorme aumento da relação Dívida Pública/PIB que ele está produzindo.

Ao contrário do que acontece entre nós, onde já há clareza quanto à possibilidade de sustentar uma recuperação firme da economia real, a situação lá ainda é bastante confusa. O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, admite que o governo avaliou mal a gravidade da crise e propõe ampliar os estímulos fiscais; a conhecida economista Laura Tyson, assessora direta de Obama está advogando um novo pacote fiscal. Em meio a sérias dúvidas sobre qual a melhor política fiscal, as mais recentes pesquisas empíricas mostram que provavelmente a redução dos impostos é mais eficaz do que o investimento do governo para estimular o crescimento do PIB. Mais importante é que a economia se recupera antes dos efeitos do pacote fiscal.

Tendo abandonado aqui a esperança de conseguir uma reforma tributária abrangente, o nosso governo Lula vai fazendo os cortes de impostos (mesmo de caráter “provisório”) que mostraram ser o melhor impulso à retomada do crescimento. Sem ter no horizonte um problema de ordem fiscal. Já nos Estados Unidos seu colega Obama vive a expectativa de um novo cenário até as eleições de 2012, onde: 1) a crise terá passado, com o crescimento voltando à sua média histórica; 2) a taxa de desemprego terá se reduzido lentamente; 3) o FED estará usando os instrumentos de que dispõe para estabilizar a expectativa inflacionária; 4) terá ficado claro que o papel do Estado-Indutor é fundamental e que a regulação dos mercados deve ser temperada com a liberdade de inovação que garante o desenvolvimento; 5) o Estado-Salvador transformou-se no Estado-Produtor, pesado, ineficiente e avesso à inovação; 6) a situação fiscal, ou já exigiu um aumento de impostos - ao qual a sociedade é refratária - ou será caótica e exigirá o encolhimento do Estado-Produtor. Em resumo, até as eleições ou Obama terá tido sucesso e posto a economia americana a funcionar ou terá fracassado e às voltas com os efeitos de uma política fiscal desastrosa que o derrotará.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento