07 de julho de 2026
Geral

Paciente aprende a conviver com doença

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Quando falamos sobre câncer, a primeira imagem que costuma vir à cabeça é a de alguém em situação deplorável, careca, anêmico e contando os dias para morrer - algo parecido ao drama enfrentado pela personagem Jenny Cavilleri (Ali MacGraw), a mocinha pobre do filme Love Story (1970), devorada por uma leucemia, mas amparada até o final pelo amor do rico, bonito e sensível Oliver Barrett IV (Ryan O’Neal).

Na vida real, as coisas são bem diferentes - primeiro, porque não há aquela trilha sonora melosa, composta por Francis Lai; além disso, o dia-a-dia dos pacientes pode ser até mais animado que o de pessoas sadias.

O ambiente nas Casas de Apoio mantidas pela Fundação Amaral Carvalho, em Jaú, está longe de passar uma idéia de doença. “O pessoal aqui é alegre, ninguém fica triste. Não somos doentes. Estamos apenas de férias”, afirma o lavrador Marcos Antônio Marques, que freqüenta o local há mais de cinco anos.

As Casas de Apoio foram criadas para abrigar pacientes vindos de outras cidades, que precisam permanecer em Jaú por longos períodos a fim de se submeterem a tratamento contra o câncer. Atualmente, existem três em funcionamento: uma com 110 vagas, para pacientes que se submetem a quimioterapia e radioterapia; outra com capacidade para 40 pessoas submetidas a transplante de medula e 40 acompanhantes; e mais uma, passível de receber 20 crianças, juntamente com seus respectivos responsáveis legais.

Marco Antônio, que mora em Santa Cruz do Rio Pardo, fica hospedado na casa para se tratar contra um tumor no pulmão. “A nossa vida aqui é normal: a gente passeia, joga baralho, faz churrasco, vê televisão”, afirma ele.

O motorista Edson Ribeiro, 52 anos, chegou ao local há pouco mais de uma semana, para se tratar de um nódulo no esôfago. “Quando saiu o diagnóstico, o médico me falou que não era nada sério. Antes de ter esse problema, eu achava que câncer era sinônimo de morte. Hoje, analisando a situação das pessoas que estão à minha volta, percebo que não é nenhum “bicho-de-sete-cabeças”, pensa.

O representante comercial Benedito Carlos Paes, 60 anos, que faz terapia contra um tumor na próstata, também mudou a forma de encarar a doença. “No começo foi difícil, pois a doença pega a gente desprevenido. Hoje, vejo a coisa por um ângulo diferente. Acredito que tenho de aprender a conviver com esse problema”, diz.

Já a comerciante Maria de Lurdes dos Santos Silva, 56 anos, que faz controle de um câncer linfático, desde 2006, conta que mudou inclusive a forma de encarar a vida. “Antes, eu costumava fazer trilhas com jipe e viajar para lugares distantes. Também gostava muito de churrasco. Hoje, prefiro ficar em casa, fazendo meus artesanatos. Além disso, diminuí a quantidade de carne no meu cardápio”, afirma ela, que mora em Bauru e participa do grupo de apoio da Associação Bauruense de Combate ao Câncer (ABCC).

Outra coisa que mudou na vida de Maria de Lurdes foi a maneira como a família a trata. “Depois que tive a doença, não posso nem ficar resfriada, que todos correm cuidar de mim”, diz ela.