Viajei para Miami dois dias depois do atentado às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001. O avião estava vazio. Dava para escolher a fileira para deitar atravessado em cinco bancos. Depois, fui para Nova York e o avião da linha doméstica também estava às moscas. Esse resultado repetiu-se na maioria dos países como resultante da transformação de aviões comerciais em mísseis. O New York Times nos dava conta de que, por conta dessa capacidade do ser humano em tomar decisões diante de elementos pouco definidos, o tráfego de veículos nos Estados Unidos havia crescido de forma perigosa. Tanto que 1.595 mortes em colisões puderam ser creditadas a motoristas que trocaram os jatos pelos próprios carros. A estatística não chamou a atenção pelas circunstâncias que a diferenciam de uma visão globalizada da morte. A discussão parece viva diante do desastre com o Airbus da Air France. Ficou mais barato ir para Paris. Como meio de transporte coletivo, os aviões comerciais só perdem para os elevadores em número de acidentes.
O jornalista canadense Dan Gardner, escreveu um livro chamado “Risco: a ciência e a política do medo” justamente sobre os impactos no ser humano da visão globalizada e traumática da morte. Nós somos governados por dois motores que Garder chama de Cabeça e Entranha. O primeiro é o racional e o segundo, o emocional. A cabeça analisa as informações para escolher um caminho, mas a entranha tem o poder de relativiza-las, de modo que, por mais coerente que pareçam, não sejam consideradas tão prioritárias. Se transferida para a percepção de 11 de setembro podemos compreender que a menor probabilidade de novos atentados terroristas logo depois dos ataques de 2001 deveria fazer com que as pessoas viajassem tranqüilas. Se isso não ocorreu foi porque o elemento emocional do julgamento de Entranha sublimou a racionalidade.
Estamos diante do medo de uma epidemia de gripe, dita suína. “Já” morreram no Brasil 33 pessoas acometidas pela doença – dizem as manchetes de ontem. Morreram mais de 300 de gripe comum neste inverno e a imprensa não noticiou. Todos os anos 300 mil brasileiros ficam, normalmente, gripadas. A gripe suína matou 800 pessoas em 160 países. Este fato causa uma comoção mundial. A fundação criada pelo ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan aponta que 350 milhões de pessoas serão muito mais afetadas no planeta, somente por causa de algum tipo de mudança climática artificial. Sem um dado cataclísmico que atraia a atenção da imprensa como oportunidade de melhorar a audiência ou, sem a visão globalizada da morte, a estatística passa em branco. A Europa, em 2010 pode perder 3% do seu PIB com as inibições de consumo causadas pelo medo da gripe suína. Pode ser a gota d’água à deflação. A emoção do tango cedeu lugar ao emocional pandêmico e ninguém vai mais para a Argentina. Eles dançam e os brasileiros perdem a oportunidade de aguçar o apetite gastronômico e cultural.
O autor também descreve vários casos em que pesquisas com dados alarmantes sobre essa ou aquela patologia foram objetos de atenção da mídia, pelo medo que seus números impunham. Mas, uma leve investigação demonstrou que não tinham origem fundamentada – era o crédito que lhes concedia legitimidade. As pesquisas eram encomendadas por laboratórios, cujos principais produtos eram justamente os indicados para tais doenças. O fato dá razão a Lula que ameaça “quebrar” a patente da indústria farmacêutica para produzir medicamentos receitados para a gripe suína, como o Tamiflu. Mal sabe que os laboratórios são mais fortes do que qualquer governo. Eles têm o monopólio dos “sais”, dos componentes químicos. Sem eles, nenhum remédio pode ser fabricado. A Diocese de Bauru suspende o tradicional abraço de “paz em Cristo” e os apertos de mão na hora do Pai Nosso. Secou o pote da água benta comunitária. A distribuição da hóstia consagrada, pelas mãos do próprio sacerdote, também está suspensa. Cada um deve pegar a sua. Medidas tomadas mais por motivações emocionais do que pelos racionais cuidados higiênicos. O Alcorão obriga as abluções dos fiéis antes de rezar à Meca, prática que se repete cinco vezes por dia. Racional, também, seria extinguir a tradição firmada na passagem do século de dar beijinho nas faces, em qualquer encontro de pessoas que nem sequer se conhecem.
Gardner tira a máscara dos profissionais da mídia com o poder de influir nas decisões do cotidiano. Somente com a educação do povo vamos gerar a massa crítica que dá conhecimento e contextualização capaz de tornar transparente o que o véu das conveniências esconde.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborados do JC