08 de julho de 2026
Nacional

EUA exportam 80% do lixo eletrônico


| Tempo de leitura: 5 min

Genebra - Cerca de 80% do lixo eletrônico dos EUA é exportado para países pobres e, principalmente, para a China. Parte desembarca no Brasil. O alerta é da Silicon Valley Toxics Coalition, entidade que monitora empresas de tecnologia na Costa Oeste americana, segundo a qual parte das companhias da Califórnia tem acordos para a venda de computadores e tecnologias de segunda mão para o mercado brasileiro. Nem todos, porém, são reaproveitados e na realidade são lixo.

A exportação para o Brasil é apenas parte do problema. Com uma produção anual de 400 milhões de toneladas de lixo e leis ambientais cada vez mais duras, os países ricos enfrentam um dilema: o que fazer com essa produção sem precedentes de resíduos e aparalhos praticamente descartáveis.

Dados da Agência Ambiental dos EUA revelam que o custo de tratar localmente o lixo produzido nos países ricos é dez vezes superior ao custo de exportá-lo aos países mais pobres, principalmente os itens tecnológicos. Nos EUA, existem 500 milhões de computadores obsoletos, além de 130 milhões de celulares que são jogados no lixo por ano. Além do Brasil, México, Coréia do Sul, China, Índia, Malásia e Vietnã recebem esse material.

Nos últimos anos, a questão do destino do lixo vem ganhando a atenção de governos. Mas o comércio não deixou de crescer, mesmo com leis internacionais estabelecendo limites. Por isso, empresas passaram a ser criadas para explorar o mercado ilegal. Cidades europeias chegam a contratar empresas para que deem fim ao lixo.

O transporte para países emergentes é a forma de garantir seus lucros. Diplomatas brasileiros confirmaram que em alguns dos carregamentos nem mesmo seguros são feitos. “Se a carga cair no mar, melhor ainda”, explica um diplomata.

Muitos são os países que exportam seu lixo. Em 2000, a Alemanha havia exportado 300 mil toneladas de lixo para 14 países. Mas o problema é mais complexo que apenas o fluxo entre ricos e emergentes. Os alemães também importaram 1 milhão de toneladas de lixo de 38 países, principalmente de alguns vizinhos. Isso porque muitas empresas alemães de alta tecnologia ambiental desenvolveram técnicas para reciclagem e oferecem seus serviços aos países da região. Na Finlândia, com apenas 4 milhões de habitantes, as exportações de lixo eletrônico chegam a 800 mil toneladas por ano.

Mas grande parte do comércio ilegal é mesmo para países pobres. Na Ásia, o Japão vem buscando acordo com países da região para exportar seu lixo. Em um estudo chamado “Envenenando os pobres”, de 2008, o Greenpeace alertou que muitos países alegam que estão enviando computadores a economias pobres para ajudá-los a ter acesso à Internet e a novas tecnologias. Mas, segundo o estudo, até 75% dos computadores que chegam à África não podem ser reutilizados e viram imediatamente lixo.

Segundo um estudo da entidade Basel Action, entre 50% e 80% do lixo eletrônico produzido nos Estados Unidos é exportado. 90% dessas exportações vão para a China. Além de receber produtos de todas as partes do mundo, a China ainda produz cerca de 1 milhão de toneladas de lixo eletrônico por ano, segundo dados da Greenpeace. Só em celulares, são 10 milhões.

Nelson Sabogal, vice-secretário da Convenção da Basiléia que regula o comércio de produtos perigosos, admite que é impossível saber qual a quantidade de lixo que é ilegalmente transportado pelo mundo. “O que buscamos é fechar acordos agora com empresas do setor de tecnologia para garantir que esse lixo possa ser reaproveitado. Só assim podemos parar essa tendência”, disse.

Ao chegar nos países mais pobres, porém, empresas especializadas retiram dos materiais o cobre, ouro e prata usado na fabricação de computadores, placas, tvs e celulares. Mas os lucros das empresas que fazem esse comércio tem um custo.

Segundo a Basel Action, o volume de produtos tóxicos nos rios chineses perto de locais usados para enterrar o lixo importado são duas vezes superiores às taxas européias.

____________________

Materiais tóxicos disfarçados entre os recicláveis

São Paulo - Falhas no controle da importação de resíduos abre espaço para a entrada de lixo tóxico no Brasil. Segundo o presidente do Instituto Brasil Ambiente, Sabetai Calderoni, consultor da ONU e do Banco Mundial, uma rede organizada opera dos países ricos para despachar ilegalmente material perigoso, como lixo hospitalar e tóxico, para o Exterior.

“A destinação do lixo nos países ricos é responsabilidade do gerador e, hoje, com a lotação dos aterros e leis ambientais rígidas, ficou muito caro dar fim ao lixo tóxico. Isso impulsiona a exportação ilegal”, diz. O pior: nos países receptores, onde o controle alfandegário costuma ser falho, o lixo acaba nos rios ou apodrece nos portos, como ocorre no Brasil com os mais de 20 contêineres contendo chumbo e cádmio, originários da Itália, Espanha e Estados Unidos, que apodrecem no Porto de Santos desde 2004. Parte dos 89 contêineres com mais de 1,7 toneladas de lixo encontrados neste porto, no de Rio Grande e em uma estação alfandegária de Caxias do Sul (RS) também estavam abandonados.

Calderoni acredita que o lixo tóxico venha “disfarçado” em contêineres com material para reciclagem. Parte da remeça encontrada no Brasil ia para a Central Brasileira de Reciclagem, de Guarulhos, que teria comprado plástico para reciclar da trade AlphaTech, mas recebeu, entre o material, lixo tóxico.

A CBR denunciou a fraude. “A maior parte da importação é feita por trader e isso nos preocupa porque não sabemos quem são os compradores e qual o destino real do lixo”, diz Auri Marçon, presidente da Associação Brasileira da Indústria PET.