09 de julho de 2026
Nacional

Em um ano, Brasil importa 175 mil toneladas de lixo


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São Paulo - O Brasil importou, oficialmente, mais de 223 mil toneladas de lixo de outros países desde janeiro de 2008, a um custo de U$ 257,9 milhões. No mesmo período, o País deixou de gerar cerca de U$ 12 bilhões com a reciclagem de 78% dos resíduos sólidos gerados em solo nacional, mas desperdiçados no lixo comum - o País recicla apenas 22% do seu lixo, muito menos do que a capacidade de absorção da indústria nacional, que compra das recicladoras o material, usado como matéria-prima na fabricação de roupas, carros, embalagens, entre outros.

No ano passado, pelo menos 175,5 mil toneladas de resíduos e desperdícios de plástico, papel e cartão, madeira, vidro, alumínio, cobre, pilhas, baterias e outros componentes elétricos, e até as cinzas provenientes da incineração de lixos municipais de cidades estrangeiras. Entre janeiro e junho deste ano, foram importadas outras 47,7 mil toneladas.

Mesmo importando, as 780 empresas de reciclagem brasileiras, hoje, atuam com 30% da capacidade ociosa por falta de matéria-prima, segundo dados da Plastivida Instituto Socioambiental dos Plásticos. A falha está na coleta e separação do lixo, atribuição das prefeituras, segundo a Constituição. Apenas 7% dos 5.564 municípios brasileiros têm um sistema efetivo de coleta seletiva.

Mais de 40% do PET reciclado é absorvido pela indústria têxtil na fabricação de fios e fibras de poliéster - duas garrafas se transformam em uma blusa ou carpete para carro.

O Brasil teria condições de fornecer todo esse PET, não desperdiçasse 50% do material no lixo comum, por falta de coleta seletiva. Enquanto sobravam garrafas PETs boiando no poluído Rio Tietê, na Capital, o Brasil teve de importar 14 mil toneladas do material no ano passado, 75% a mais do que em 2007. A carência do produto e o aumento da demanda pela indústria têxtil e automobilística fez com que o preço da tonelada disparasse no mercado nacional, equiparando-se ao valor do importado, entre R$ 700,00 e R$ 900,00.

O mesmo com itens como resíduos de alumínio, usado principalmente na fabricação de carros - só no ano passado, o Brasil importou 92,7 mil toneladas do material tirado do lixo de outros países. Ou de cobre, aproveitado para fiação, pilhas e componentes elétricos, usados até para fazer tinta, além de vidro e papel, reutilizados pelas indústrias do próprio setor.

“Se existisse uma política nacional de reciclagem não era preciso Bolsa Família. O dinheiro do lixo renderia aos brasileiros o mesmo benefício, além de emprego”, ironiza o presidente do Instituto Brasil Ambiente, Sabetai Calderoni, autor do livro “Os Bilhões Perdidos no Lixo” e consultor da Organização das Nações Unidas e do Banco Mundial para a área ambiental. “Só faz sentido o Brasil importar esse material porque as redes de captação e separação não funcionam. Falta PET e outros resíduos no mercado nacional”.

São Paulo, maior geradora de resíduos do País, deixa de arrecadar anualmente U$ 840 milhões ao reciclar apenas 30% do lixo gerado na cidade - os outros 70% são desperdiçados em aterros superlotados ou irregularidades, o que resulta em danos ambientais. No Estado, um em cada cinco aterros opera sem licença da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb).

O projeto de lei para uma Política Nacional de Resíduos Sólidos, que cria parâmetros para reciclagem e regulamenta a obrigatoriedade dos municípios na coleta seletiva, tramita no Congresso desde 1991. Enquanto não for aprovada, os resíduos continuarão a ser importados para abastecer a indústria nacional de reciclagem, que se desenvolve numa velocidade maior do que o sistema de coleta seletiva.

Para os países exportadores, não existe melhor negócio. “Em países como Inglaterra, a destinação do lixo industrial é responsabilidade de quem gera e despejá-los nos aterros sanitários é muito caro. E a indústria recicladora desses países não tem capacidade para absorver todo o lixo gerado. Exportar é uma saída”, diz o diretor-executivo da associação Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre), André Vilhena.

Ao contrário, no Brasil, a capacidade da indústria é maior do que o País coleta. “A falta de coleta seletiva abre espaço para a importação de lixo, inclusive ilegal”, diz o presidente da entidade, Francisco de Assis Esmeraldo. Em 2008, a reciclagem de plásticos faturou R$ 1,8 bilhão e gerou 20 mil empregos diretos. Mas, apenas 21% do produto encontrado no lixo do Brasil foi aproveitado.

“Gastamos milhões de dólares, na última década, para desenvolver uma indústria de reciclagem capaz de dar uma destinação para o descarte no Brasil, mas hoje cuidamos do lixo de fora, enquanto o nosso continua a lotar os aterros”, esbraveja o presidente da Associação Brasileira da Indústria do PET, Auri Marçon.