08 de julho de 2026
Ser

‘Quando tudo não é o bastante’

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 3 min

Por que é que pessoas com tantas razões para serem felizes sentem, de maneira tão intensa, que falta alguma coisa em suas vidas? Será que a felicidade, assim como a juventude eterna, é um objetivo que nunca será alcançado, por maiores que sejam os esforços? Ou será que a busca pela felicidade está sendo feita de maneira errada?

As indagações são do rabino Harold Kushner, autor do livro “Quando tudo não é o bastante”. Ele afirma que o desejo da maioria das pessoas é ser feliz e que elas se esforçam muito para conseguir isso. Compram livros de auto-ajuda, freqüentam escolas, mudam seu estilo de vida, enfim, fazem de tudo para alcançar a tão desejada felicidade.

“Mas apesar de tudo isso, suspeito que a maioria das pessoas, na maior parte do tempo, não é feliz”, diz Kushner. Ele cita Oscar Wilde, que certa vez escreveu que na vida existem duas grandes tragédias: uma é não conseguir o que se quer; a outra é conseguir. Segundo o rabino, Wilde estava tentando nos dizer que, por mais que nos esforcemos para obter o sucesso, ele não nos satisfará.

Quando finalmente conseguimos atingir um objetivo ou realizar um sonho, sacrificando tantas coisas, descobrimos que o resultado não era bem o que esperávamos. Fica, então, um sentimento de frustração e partimos para outra, querendo mais.

“Apesar de todos os sinais exteriores de sucesso, eles se sentem ocos. Nunca podem relaxar e desfrutar suas realizações. Precisam de um sucesso após outro”, escreve Kushner. Segundo ele, algumas pessoas podem até alcançar todos os itens de sua lista de desejos e, ainda assim, se sentirão vazias. Podem ter atingido o ápice da profissão e, mesmo assim, sentir que falta alguma coisa. Podem saber que os amigos e conhecidos os invejam, nem por isso experimentam um contentamento verdadeiro em suas vidas.

De acordo com Kushner, esse não é um drama da vida moderna. É algo que perturba algumas mentes desde a Antigüidade. Ele lembra que um dos clássicos da literatura mundial, o poema dramático “Fausto”, de Goethe, escrito há cerca de 200 anos, já tratava da insatisfação da alma humana.

O personagem do poema é descrito pelo seu criador como uma pessoa de meia idade que quer experimentar de tudo. Ele quer ler todos os livros, falar todas as línguas, provar todos os prazeres, enfim, quer ser como Deus, ultrapassando as limitações humanas. Para alcançar tudo isso faz um pacto com o demônio Mefistófeles, que “tudo” lhe dá - riquezas, poder político, capacidade de viajar para todos os lugares e de ser amado por todas as mulheres que deseje.

Mesmo tendo tudo isso, Fausto descobre que não é feliz. Por mais riqueza e conhecimento que acumule, por mais mulheres que seduza, há dentro dele uma permanente insatisfação.

Para a eternidade

Mas por que será que isso acontece e qual a solução para esse eterno descontentamento? Para o rabino, nossas almas não são sedentas de fama, conforto, propriedades ou poder. Segundo ele, esses valores criam muitos problemas quando alcançados. Nossas almas têm fome do significado da vida, ou seja, de viver de tal forma que nossa existência tenha importância capaz de modificar o mundo, ao menos um pouquinho, pela nossa passagem por ele.

Na opinião de Kushner, o que nos frustra e rouba a alegria de nossas vidas é esta ausência de significado. “Acho que não é da morte que as pessoas têm medo. É outra coisa muito mais trágica e perturbadora que nos assusta. Temos medo de nunca termos vivido. Assusta-nos chegar ao fim de nossos dias com a sensação de que jamais estivemos realmente vivos”, afirma.

Em um dos trechos do livro, o rabino diz que, segundo o Talmude (livro sagrado para o judaísmo rabínico), existem três coisas que devemos fazer durante nossas vidas: ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Essas três ações representam maneiras de investir as energias criativa e produtiva em coisas que sobreviverão depois de nós. São feitos que reafirmarão que nossa vida não foi em vão e que o mundo foi melhorado pela nossa passagem por ele.