08 de julho de 2026
Ser

Bom para você, bom para mim?

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 3 min

“Eu espero acontecimentos. Só que quando anoitece, é festa no outro apartamento”. Este trecho da música “Acontecimentos”, interpretada pela cantora Marina Lima, reflete a inquietude presente na vida das pessoas que sofrem com a sensação de que sempre está faltando algo e que, esse “algo”, está presente na vida alheia.

A psicoterapeuta e analista de abordagem junguiana Helenice Cristina Azevedo e Silva explica que viver sozinho é uma tarefa bastante difícil para o ser humano, e o convívio em sociedade passa a ser necessário. Esse convívio gera a necessidade de comparação que, por sua vez, incentiva a competitividade. “Tudo isso porque o ser humano possui natureza carente e competitiva”, acrescenta.

Ela ainda ressalta esse enxergar na vida do próximo coisas que talvez preenchessem a vida que quem está olhando como parte de um contexto chamado de contaminação psíquica, que todos têm no coletivo. Essa questão é, em primeiro lugar, externa. Quem nunca quis ter o melhor trabalho, a melhor casa ou o melhor casamento?

Projetar sempre aquilo que é melhor é normal, e também faz parte do humano. Afinal, as pessoas precisam de metas e projetos de vida. Então, onde está o problema?

“Na dosagem!”, afirma Helenice. A perda da individualidade humana é apontada pela psicoterapeuta como a grande responsável por essa busca quando ela se torna incessante e, em muitos casos, uma patologia. Talvez, uma das doenças mais preocupantes da vida atual.

Perda da individualidade

Quando a pessoa perde a sua individualidade não consegue definir, exatamente, o que é bom para sua vida ou o que a massa coloca para ela como sendo bom. Massificando os próprios desejos e necessidades, o indivíduo acaba esquecendo de olhar para si e se insere nos desejos dessa massa. Desejos que nem sempre condizem com a sua realidade.

Nesse contexto todo, entra a competitividade que não é sadia. “A pessoa deixa de ir atrás do que é bom para ela para satisfazer o coletivo”, diz Helenice. O que é bom para um indivíduo não será, necessariamente, bom para o outro. Mas, por não ter aquilo que satisfaz e dá alegrias para o ser coletivo, ele pode se sentir inferiorizado, com a sensação de que está faltando algo e de que “a grama do vizinho está mais verde”.

É exatamente aqui que a perda da individualidade se faz mais presente e preocupa. Por exemplo, a compra de um carro novo é importante pela necessidade ou porque “todo mundo” está trocando o carro por causa da redução do IPI (Imposto Sobre Produtos Industrializados)? Será que outras coisas não são prioridades, como a reforma da casa ou investimento nos estudos ou nos filhos? “Esta é a questão em que estamos nos perdendo”, diz a psicoteraupeta.

____________________

Eufórico x melancólico

O ser humano compete mesmo sem perceber. Quando uma mulher se arruma para ir a uma festa, está se produzindo apenas para ela ou para competir com as outras? São situações de competição que acontecem todos os dias, inconscientemente ou não. Porém, há influências do meio, como a publicidade, por exemplo. Todos vendem o belo, o bem sucedido, o feliz. Acabamos vivendo em um mar de cobranças em que muitos acham que todo os outros são mais felizes.

Na verdade, a sociedade sempre colocou isso para a massa, mas a quantidade de veículos de comunicação usados para esse fim, atualmente, é muito maior. As pessoas abrem revistas e não vêem gente feia ou triste. As pessoas não suportam o estado mais melancólico que é da natureza humana. Há uma busca pela euforia.

“Muitos chegam ao consultório já com o diagnóstico, dizendo que estão com depressão. Mas, na verdade, estão tristes porque perderam o emprego, namoro ou alguém da família que faleceu. O que é normal”, ressalta a psicoterapeuta Helenice Cristina Azevedo e Silva.

A não-aceitação do estado melancólico, típico do comportamento humano, eleva a necessidade da euforia e felicidade, além da projeção de que o outro tem emprego, casa, aparência, uma vida melhor.