Com rendimento garantido e ausência de tarifas, a caderneta de poupança está cada vez mais atraente aos investidores. Tanto que na semana passada, a Caixa Econômica Federal (CEF), que representa 35% do dinheiro aplicado na poupança no Brasil, anunciou marca recorde de saldo de depósitos: R$ 101 bilhões, registrados no dia 16. Com a redução da taxa Selic, que hoje é de 8,75%, a aplicação ficou ainda mais “irresistível”.
Isso porque reduz a remuneração dos investimentos atrelados aos juros da Selic, como os de renda fixa. Na CEF, os R$ 101 bilhões representam um crescimento de 19,67% em relação ao valor do mesmo período do ano passado, quando chegou a R$ 84,4 bilhões. De acordo com assessoria de comunicação do banco, no saldo, os recursos totais do mercado chegam a R$ 286,5 bilhões. Dos R$ 5,2 bilhões de captação líquida, 60% são aplicações de clientes com renda de até dois salários mínimos. De janeiro à primeira quinzena de julho foram abertas 1,8 milhão de novas cadernetas.
Dados do Banco Central (BC) mostram que, ao analisar todos os bancos brasileiros, o total dos depósitos está hoje em quase R$ 290 bilhões. No final de 2008, eram R$ 270 bilhões.
O economista Reinaldo Cafeo avalia que, se a captação da poupança continuar em alta, o sistema monetário pode sentir falta de dinheiro para financiamentos. Ele explica que a caderneta de poupança tem uma “trava” legal que é a obrigação de destinar 65% do valor depositado para habitação ou saneamento básico.
“Se a poupança continuar recebendo fortemente esses recursos, potencializará a possibilidade de emprestar dinheiro para moradia e infra-estrutura. Porém, teremos ali na frente um problema de liquidez no sistema”, explica Cafeo. “O dinheiro de uma aplicação tradicional, que um banco pode emprestar para empresas e pessoas físicas, seria somente 35% desse volume”, afirma.
Ele avalia que o governo federal não pode interferir nesse ponto, pois essa determinação está na legislação. “Eu até avalio que o governo não vai reduzir mais a taxa Selic esse ano, pois se ele diminuir ainda mais, a poupança ficará muito mais atrativa e ela pode se tornar um freio”, diz.
Caso a captação da poupança mantenha esse aumento, Cafeo acredita que o governo deverá tornar outros investimentos mais interessantes. “Ele terá que rever a tributação das aplicações financeiras, pois a poupança é isenta. A saída do governo neste momento é reduzir a tributação das aplicações normais, tornando-as novamente atrativas de tal maneira que o investidor, ao analisar as taxas, conclua que é melhor deixar seu dinheiro no fundo de investimento”, explica.
Migração
Para o economista, a maior parte do volume de novas captações da caderneta de poupança advém da troca de investimentos. “Uma migração do fundo para a poupança. A caderneta abriga a economia popular e quem está nessa faixa, ou foi afetado pelo desemprego ou não tem sobra para investir. Como não mudou nada em termos de renda nacional para que o pequeno poupador potencialize a poupança, há um grande contingente de pessoas migrando”, avalia o economista.
“O investidor que não quer se expor ao Imposto de Renda e aplica R$ 100 mil, R$ 200 mil na poupança pois, por ser isenta, facilita o saque a qualquer momento, sem ter taxa de administração. Então, se a diferença entre ela e os fundos for pouca, os investidores não têm dúvidas: migram”, observa Cafeo.
Por isso, ele orienta quem tem dinheiro guardado ou uma sobra no final do mês a aplicar na caderneta. “Se tem gente de grande capital investindo na poupança, orientamos quem tem dinheiro sobrando a não pensar em outro investimento e aplicar na poupança”, sugere.
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Facilidade
Há alguns anos, a jornalista Mariana Bonora, 25 anos, mantém uma caderneta de poupança. Porém, ela intensificou os depósitos há cerca de um ano. “Todo mês deposito um valor. Assim que recebo o salário, já separo aquela quantia. É como se fosse uma conta que eu tenho a pagar, já faz parte da minha programação”, explica.
Ela afirma que não tem um objetivo final para a aplicação. “Não tenho nenhum plano específico. É mesmo uma garantia ou para ser utilizado em alguma emergência. Se eu precisar, está lá”, diz. A jornalista não escolheu a poupança pelo rendimento, mas pela facilidade. “Como fazia desde jovem, continuei depositando. Achei mais tranqüilo. Não busco tanto o rendimento, mas sim um lugar para guardar o dinheiro. Além disso, a poupança não cobra taxas, não preciso pagar nada”, afirma.