Mais uma vez voltamos ao tema, devido às insistentes dúvidas de leitores que chegam até nós. Falar em motores Flex, para alguns, soa como uma mágica simples que se faz com pouco dinheiro e trocando uma pecinha, parece que não aprendem! Não entendem toda a tecnologia envolvida na pesquisa e desenvolvimento das fábricas, universidades e institutos de pesquisa pelo mundo afora, e ainda caem na lábia de alguns balconistas de lojas de autopeças...
Vamos rever alguns pontos mais comuns nas perguntas que recebo:
“- Pode-se transformar um motor convencional em Flex?” Claro que pode, e assim foi feito pela própria fábrica no início, só que para nós não compensa pelo custo. Seria preciso mexer na taxa de compressão e consequentemente haverá troca de pistões, além de trocar toda a linha de combustível, incluindo o tanque, bomba, os bicos injetores e filtros. As velas e a sonda lambda deverão ser substituídas e toda a curva de avanço alterada. Isto para se fazer direito, e não a simples meia-boca que é a troca de um chip, como se apregoa por aí. Cuidado!
“- Tem problema rodar com apenas um combustível?” Claro que não, meu amigo! Motor não é sentimental nem sente saudades. O que o motor não tolera ingerir é combustível adulterado. Se for de boa qualidade, escolha o combustível que preferir (pelo preço ou pela disponibilidade local). Meu Focus 1.6 Flex 2008, com 33.000 km rodados até agora, ainda não saboreou gasolina nenhuma vez e nunca reclamou da falta de variação na dieta...
“- Motor Flex tem menor vida útil que um a gasolina?” Pelo contrário. Pelo fato de estar adaptado para receber 100% álcool, é mais bem protegido contra corrosão, além do fato do álcool contaminar menos o óleo lubrificante e, portanto garantir melhor lubrificação das partes móveis, como já expliquei anteriormente.
“- Como é feita a identificação do combustível no tanque?” O gerenciamento do sistema de identificação do combustível existente no tanque (que pode ser de 100% de gasolina até 100% de etanol ou qualquer mistura entre eles) é feito por um sensor encarregado de identificar e dosar a mistura a partir de variáveis como temperatura e rotação do motor. A leitura é feita pela sonda lambda que chega à composição da mistura de combustíveis conforme o teor de oxigênio contido nos gases de escape. Nos primeiros motores Flex, em 25 segundos o sistema identificava a mistura de combustíveis e adaptava o motor para funcionar com ela, enviando dados para a centralina. Hoje este tempo foi reduzido quase à metade.
“-Como se comporta um motor Flex na partida a frio?” A centralina (ou ECU, Electronic Central Unit) memoriza a última mistura usada no motor e aciona a partida a frio injetando gasolina se a mistura contiver mais de 80% de álcool e se a temperatura estiver inferior a algo em torno de 14ºC. Quando o motor pegar, se ainda tiver a tendência de morrer ou falhar, automaticamente é injetada mais gasolina do reservatório de partida a frio, auxiliando a manutenção de uma marcha lenta estável.
“- Por que um motor Flex consome mais combustível, seja usando gasolina ou álcool, do que outro equivalente de um único combustível?” Motores puros a gasolina e a álcool são diferentes entre si pelas características físico-químicas dos próprios combustíveis. A gasolina tem alto teor calorífico, velocidade de chama elevado, mistura-se com o ar em uma proporção de 14 partes de ar para uma de gasolina (ou 14:1) e é comprimida na câmara de combustão numa relação média de 9,5:1. Já o álcool tem menor poder calorífico em relação à gasolina e se mistura ao ar na proporção de 9:1, daí a necessidade de colocar mais álcool para dar a mesma potência equivalente à gasolina. Mas tem uma velocidade de chama menor que a gasolina e maior poder de detonação, suportando bem taxas de compressão de até 12,5:1, daí sua maior eficiência termodinâmica. Só que um motor Flex precisa conciliar todas estas características para qualquer mistura entre os combustíveis, e o faz alterando o mapeamento eletrônico de injeção e de ignição, mas não pode alterar características físico-construtivas do motor, como taxa de compressão e grau térmico de velas, por exemplo. Portanto, o motor Flex tem um compromisso extremamente louvável de funcionar com qualquer mistura entre os combustíveis, mas não é otimizado para nenhum deles. Este é o fato de um motor puro ser mais eficiente.
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.