A dificuldade de acesso ao crédito, especialmente ao pequeno empresário, foi uma das demandas apresentadas ontem em Bauru a Alencar Burti, presidente da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp). De forma inédita, ele também acumula a presidência da Confederação das Associações Comerciais do Brasil (CACB) e da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), a maior do País. Burti se reuniu com representantes de todo o Estado na sede da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), no Centro da cidade, onde ouviu as principais reivindicações do segmento que movimenta a economia.
Com base nos apontamentos de todo o Estado, informados durante o circuito de visitas que fará em território paulista (além dos encontros na Capital), um plano estratégico para o Estado será elaborado e finalizado no congresso programado para outubro. “Não se pode saber em São Paulo o que se passa em Bauru. Para ter uma visão global do Estado é importante que se visite. Vamos ouvir o que deve ser feito. Eu preciso ser pressionado, como quero pressionar. Se não me disserem, não é possível atendê-los”, explica o presidente da Facesp.
De acordo com ele, o Estado abarca 410 associações comerciais e o País, duas mil. “Somos uma entidade com 115 anos. A razão da nossa existência é defender o empreendedorismo”, informa Burti. Segundo o presidente da Facesp, a entidade agrega vários setores, não apenas o comercial, como também o de serviços, por exemplo. A responsabilidade lhe impõe, inclusive, um trabalho político. Durante a entrevista, atendeu uma ligação do Senado.
“Está tudo interligado. Não adianta pensar no que eu vou fazer pelo comércio, se não tiver expressão política. Tem que ter uma organização, fazer um sumário e atacar cronologicamente e hierarquicamente. Quais são os problemas mais graves? Nós somos semeadores e nenhum processo é milagroso. Processo tem tempo, condições, mas precisa fazer”, argumenta.
Uma de suas lutas é o cadastro positivo - um banco de dados que reúne informações de crédito de bons pagadores. “Se eu sou um bom cidadão, vou mostrar que sou. É a valorização do indivíduo para que ele possa agir coletivamente. Qual o maior patrimônio que eu tenho? É minha vida, meu comportamento”, comenta. Para Burti, mais do que uma queda de 0,5 ponto percentual na taxa Selic, o fundamental na negociação dos juros é o histórico do requerente a crédito.
“O grande componente do spread é o risco. Na medida que você significa um risco menor, o juro será menor. Então, por autodefesa, ele vai ter um comportamento melhor porque sabe que isso vai dar lucro”, acrescenta. Atualmente, para muita gente, obter crédito já é sinônimo de superação.
“Não está ao alcance de todos os pequenos empresários. Embora seja divulgado que está aberto, crescendo, é pouco acessível. As vezes eles não têm condições, são devedores”, comenta o anfitrião Cássio Carvalho, presidente da Acib. Na opinião dele, a formalização de um pacote poderia acertar a vida dos empresários com o problema.
____________________
‘Para micro, burocracia é o pior problema’
A burocracia é mais grave para o micro e pequeno empresário do que a carga tributária, avalia Alencar Burti, presidente da Confederação das Associações Comerciais do Brasil (CACB), da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp) e da Associação Comercial de São Paulo (ACSP).
“A carga tributária para o pequeno já tem alguns dispositivos que facilita. Mas o condensado da lei do Supersimples tem mil páginas. Como é que alguém que tenha uma empresa com duas pessoas pode entender e dispor sobre isso? Leva todo mundo para a informalidade. E o que mais cresce no Brasil? O crime organizado, que é a pirataria, a sonegação. Fruto de uma estrutura burocrática, que impede a pessoa de ser cidadã”, analisa.
Para ele, a informalidade é uma confissão de culpa. “Nós olhamos muito para o micro e pequeno empresário. Estamos agora tratando com Micro Empreendedor Individual (MEI). Estamos fazendo o seguinte: como você pode combater a burocracia”, informa. O programa do microempreendedor individual contempla o trabalhador autônomo que atua no mercado informal.
Ao pagar uma contribuição mensal de até R$ 57,15 fica em dia com impostos federais, estaduais, municipais e a contribuição para a Previdência Social. Com isso, tem direito a benefícios como licença-maternidade, auxílio-doença e aposentadoria por idade (caso tenha contribuído por pelo menos 15 anos). Mas para que avanços sejam obtidos, a sociedade civil deve estar organizada.
“A primeira coisa que ela requer é responsabilidade. Todos nós temos que assumir nossa parcela de responsabilidade”, conclui Burti.