Bauru foi uma cidade que cresceu muito rápido. Entre seu surgimento e crescimento vertiginoso há um intervalo de poucos anos. De acordo com o historiador e professor de história moderna e contemporânea João Francisco Tidei de Lima, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, essa é uma característica das cidades que foram beneficiadas por uma frente pioneira. Segundo ele, existem poucas no Brasil que podem ser classificadas dessa forma.
No caso de Bauru, o avanço ocorreu em função da versão paulista da “Marcha para o Oeste” - movimento que incentiva a ocupação de terras ainda desconhecidas. Em São Paulo, isso aconteceu no início do século passado.
João Francisco lembra que, até o fim do século 19, a região oeste do Estado era praticamente desconhecida. Os mapas da época mostram um vazio que vai da região central até o extremo oeste. Nessa área está escrito “terrenos desconhecidos, povoados por índios”. E Bauru era uma das últimas povoações até esse vazio. Fazia uma espécie de fronteira com o desconhecido.
Com a expansão da cultura do café, somada à chegada de milhões de imigrantes à província paulista, o governo se vê obrigado a abrir mais fazendas e a ampliar o sistema de transporte. E Bauru estava na rota desse avanço.
Em 1893, Bauru era apenas um bairro de Espírito Santo da Fortaleza. Depois virou distrito. Em 1896, passa a ser município. Em 1900, chega um ramal da Estrada de Ferro Sorocabana, vindo de Botucatu. Em 1904, decide-se no Rio de Janeiro pela construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB) partindo de Bauru. As obras têm início no ano seguinte. Uma cidade que tinha 500 pessoas passou a ter 10 mil.
Em 1910, chega a Bauru a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que vinha de São Paulo e passava por Dois Córregos, Jaú e Pederneiras. “Num intervalo de dez anos, uma cidade que não tinha nada agora tem três ferrovias, vira um entroncamento ferroviário”, observa o historiador. Bauru dá um salto em seu desenvolvimento. “A cidade não era nada. De repente, tem tudo”, comenta.
Para João Francisco, foi uma transformação muito rápida, que é a característica da chamada frente pioneira. “São poucas as cidades no Brasil que passaram por isso, o que torna Bauru diferente da maioria dos municípios”, diz. A chegada da ferrovia foi o grande divisor de águas em Bauru. Foi o que impulsionou a cidade em vários aspectos.
Lidia Possas, coordenadora do Grupo de Pesquisa CNPQ Cultura e Gênero, da Unesp de Marília, cita que a ferrovia era o grande instrumento do progresso capitalista no começo do século 20. Segundo ela, era um sinal de modernização. “A ferrovia acelera o tempo. Se antes tínhamos o tempo da carruagem, a ferrovia vem para mudar não só a perspectiva do mercado, da troca de mercadorias, mas a concepção de mundo. A ferrovia acelera o processo de conhecimento do mundo com suas viagens rápidas”, diz ela.
Lidia lembra que a construção da Noroeste trouxe gente do Brasil inteiro para cá. Mesmo depois de pronta, a ferrovia continuou abastecendo a cidade de diferentes povos. Todos os dias, milhares de pessoas desembarcavam na estação vindas de todos os cantos. Muitas acabaram ficando. Para Lidia, isso transformou Bauru numa cidade eclética.
“Bauru é uma cidade de forasteiros e é preciso encarar isso como uma coisa legal. Acho interessante a cidade se sentir assim porque provoca uma postura mais democrática”, sustenta. Na avaliação dela, no fundo, todos os moradores de Bauru são forasteiros. “Mesmo quem nasceu aqui, tem o avô ou bisavô que veio de fora. Isso aqui era terra de caingangues”, argumenta.