11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Renato Barban: Mais de meio século dedicado à medicina em 80 anos de idade

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Envelhecer com vigor físico e lucidez é um sonho compartilhado pela maioria. Para Renato Barban, isso é realidade. Aos 80 anos, mas aparentando menos, o pediatra leva uma vida ativa e ainda faz plantões diariamente.

Os mais de 50 anos de experiência em medicina pediátrica se fundem com a história de mais de 15 mil bauruenses que tiveram sua infância assistida por “seo” Renato.

As histórias colecionadas também são muitas e a memória, ainda forte apesar da idade, é capaz de lembrar de datas e episódios que marcaram sua vida pessoal e profissional. Os seis anos que passou atendendo crianças indígenas em plena selva amazônica são descritos por ele como a maior aventura e fonte de experiências de sua vida.

A paixão pela medicina e por crianças, histórias de vida pessoal e profissional, saúde pública, segredos de juventude, velhice e paixões fazem parte da entrevista que Renato Barban concedeu ao Jornal da Cidade. Confira os principais trechos.

Jornal da Cidade - O senhor se considera realizado nesses mais de 50 anos trabalhando como médico pediatra? Renato Barban - Sim. Graças a Deus eu me sinto realizado porque desde 1955, quando comecei a clinicar em Bauru, exerço a pediatria. Consegui “fazer meu nome” como médico pediatra.

JC - O senhor ainda atua como pediatra? Barban - Sim, trabalho como plantonista na pediatria do hospital São Lucas. Mas já passei pela pediatria da maioria dos pronto-socorros da cidade.

JC - E na vida pessoal, a realização é a mesma? Barban - Estou muito feliz em ter chegado aos 80 anos de idade nas condições que eu cheguei. Tenho algumas deficiências como toda pessoa idosa, mas trabalho e faço plantões até hoje. Gosto muito da profissão que escolhi e que construí ao longo de todos esses anos. Apenas uma tristeza: ver meus amigos “partindo”. Sinto que meu universo de comunicação está ficando limitado.

JC - Qual é o segredo para chegar com saúde e disposição para o trabalho aos 80 anos? Barban - Primeiro é a genética. Minha mãe faleceu lúcida aos 91 anos. Nunca fumei, não sou ligado a excessos alcoólicos e aprendi a comer pouco. Como atividade física, pratico hidroginástica diariamente.

JC - A medicina foi um sonho de menino realizado? Barban - Talvez não. Como todo jovem, eu me sentia indeciso sobre qual profissão seguir. Achei que seria engenheiro porque meu pai trabalhava com a indústria madeireira. Mas decidi pela medicina quando fui estudar em São Paulo. Fiz faculdade na, então, Escola Paulista de Medicina.

JC - Enfrentou alguma dificuldade morando fora de casa? Barban - Passei seis meses sem falar com ninguém da família. A comunicação era precária e me correspondia com minha mãe apenas por carta. Porém, não tive grandes dificuldades porque fui morar com minha avó, que tinha uma pensão. Ela era uma italiana durona e quis me colocar no eixo, mas eu não entrei não!

JC - O senhor foi um jovem “levado”? Barban - Não muito! Naquele tempo os jovens não tinham a liberdade de hoje. Éramos mais sérios.

JC - Por que a escolha da pediatria como especialização? Barban - Sempre me identifiquei com a pediatria. Decidi que essa seria minha especialidade quando estava no quinto ano de faculdade.

JC - Quais foram as maiores alegrias ao longo dessas décadas de trabalho com crianças? Barban - Acho que me sentir útil na criação e cuidados com os filhos de outras pessoas. Gosto de ensinar a puericultura às mamães, ou seja, mostrar como devem ser os cuidados com o bebê, a arte de criar e educar o ser que está em desenvolvimento. Eu tinha um cargo na Secretaria da Educação que era chamado de dispensário de puericultura. Uma profissão muito bonita que foi extinta, infelizmente.

JC - E as tristezas? Barban - Insucessos, como ver crianças falecerem. Isso é muito triste. Naquela época, não tínhamos recursos médicos como hoje. Praticamente não havia especialistas em Bauru para encaminharmos casos graves. Então, eu tentava fazer de tudo e, na medida do possível, encaminhava para São Paulo.

JC - Além de Bauru, o senhor trabalhou em outras cidades? Barban - Por motivos pessoais eu interrompi minha carreira aqui por seis anos. Isso foi entre 1983 e 1989. Fui para uma cidade do Estado do Mato Grosso chamada Juína. São 800 quilômetros acima de Cuiabá. Um lugar no meio da floresta. O hospital era próximo ao garimpo de diamantes que ficava ao lado da reserva indígena dos “Cinta Larga”.

JC - Como o senhor descreveria essa experiência? Barban - Foram anos em que adquiri ainda mais experiência. Por exemplo, a medicina que eu encontrei aqui em Bauru no início da minha carreira, na década de 50, eu encontrei lá, na década de 80. Quer dizer, os recursos eram limitados mesmo.

JC - Quais foram as maiores dificuldades encontradas nessa “aventura médica na selva”? Barban - A falta de recursos, com certeza. Se aqui eu já encontrava problemas, lá, é como se essas dificuldades fosses multiplicadas por dez. Os casos mais graves precisavam ser encaminhados para Cuiabá e, como eu disse antes, ficava a 800 quilômetros de Juína. O meio de transporte mais viável no sentido da agilidade era o avião, já que de carro levava-se dois dias para chegar à Capital do Mato Grosso, isso, quando não chovia.

JC - O sacrifício compensou? Barban - Financeiramente não. A parte humana foi a grande realização desse trabalho. Fui para lá com o intuito de trabalhar dois anos e acabei ficando por seis. Eu cuidei de centenas de indiozinhos das reservas da região. Eles chegavam lá muito doentes. Aprendi a tratar malária, leishmaniose cutânea, entre outras doenças tropicais. Enfim, aprendi a medicina do lugar com poucos recursos e muitos pacientes. Eu tinha uma boa formação clínica e bastante experiência com pediatria. Cuidei de centenas de casos de raiva por mordida de macaco. É uma realidade totalmente diferente da nossa, aqui.

JC - Passou por alguma experiência pessoal difícil naqueles anos? Barban - Algumas sim. Fui operado de hérnia de disco por um amigo de profissão que fiz lá. Os recursos eram escassos, mas a dor insuportável não nos deixou outra opção. O mais interessante foi que nos reencontramos por telefone 23 anos depois que nos separamos.

JC - Qual é a sua visão sobre a saúde pública brasileira atual? Barban - Está havendo um equívoco das autoridades no equacionamento dos problemas da saúde. Na minha área, por exemplo, você sabe dizer porquê estão faltando profissionais nos prontos-socorros? Porque estão pagando mal! Abrem concursos, as pessoas passam, adquirem experiência e logo abandonam os postos de trabalho porque não agüentam a pressão. Para trabalhar em um pronto-atendimento é necessário ter experiência e, quem tem, não quer ganhar pouco. Acredito que esse é um dos principais problemas da nossa saúde pública hoje.

JC - O senhor tem idéia de quantas crianças já atendeu? Barban - Bom, quando parei de clinicar eu tinha mais de 15 mil fichas de pacientes. Isso, sem contar as minhas aventuras na selva amazônica e meus plantões atuais.

JC - Hoje, qual é o maior problema na saúde infantil? Barban - A alimentação das crianças está muito errada, o que as deixa fracas e com a imunidade baixa. Não é uma subnutrição por falta de comida, mas sim de nutrientes. Alimentos como salgadinhos, biscoitos recheados, lanches e alimentos industrializados estão substituindo as frutas e alimentos saudáveis e, isso é muito ruim para a saúde e o desenvolvimento dos pequenos.

JC - O que o senhor gosta de fazer para se divertir nas horas vagas? Barban - Meus dias são muito corridos. Pela manhã eu faço hidroginátisca, depois leio os jornais da cidade, cuido dos serviços bancários e descanso um pouco. Logo depois do almoço, começa minha jornada de trabalho das 13h às 19h.

JC - Quais são as suas paixões? Barban - Eu joguei futebol na hípica de Bauru até os 50 anos de idade. Mas era muito perna-de-pau, jogava só por esporte mesmo. Fui zagueiro e depois goleiro. Sempre fui apaixonado pelo futebol, mas como jogador de futebol, sempre fui um ótimo pediatra. Os animais também são minhas paixões. Tenho dois yorkshires, o Don Alex e o Brutos. Amo brincar com eles. São a alegria da casa, até dormem no meu quarto.

JC- Fazendo um balanço desses 80 anos, ficou alguma coisa para trás ou realizou tudo o que planejou e desejou? Barban - Não posso dizer que ficou algo para trás. Não fiquei rico, apenas “remediado”. Nunca tive ganância por ganhar muito dinheiro. Trabalho até hoje porque gosto e me sinto útil. Eu viajei pelo Brasil e pela América do Sul. Gostaria de ter viajado mais quando jovem, mas não tive dinheiro suficiente e, hoje, não me sinto em condições de viajar para longe porque a idade já me limita e não deixo meus cachorros sozinhos. Já fiz isso por duas vezes e eles quase morreram de depressão. Porém, analisando todos esses anos, me julgo um homem feliz e realizado.

Perfil

Signo: Leão

Esposa: Teresinha

Filhos: Carmem Lígia, Eduardo, Suzana, Mário Augusto e Priscila

Hobby: Hidroginástica e brincar com os cachorros

Livro de cabeceira: “A sombra do vento”

Filme preferido: Ação

Estilo musical predileto: Da música clássica ao sertanejo

Time: Palmeiras

Para quem dá nota 10: Para minha esposa Teresinha

Para quem dá nota 0: À corrupção generalizada