08 de julho de 2026
Articulistas

Centro da cidade

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Acompanhamos e participamos da vida de Bauru desde 1953. A cidade tinha 55 mil habitantes. O seu centro ainda possuía a antiga Igreja Matriz; a Praça Rui Barbosa era cercada de ficus, caprichosamente podados; a Av. Rodrigues Alves tinha o seu canteiro central largo, com bancos onde as pessoas sentavam sob a sombra dos ficus, igualmente podados; a Rua Batista de Carvalho tinha duas mãos, por onde os ônibus do Expresso de Prata subiam e desciam, com paradas de embarque e desembarque de passageiros para Agudos, Lençóis, São Manuel e Botucatu. Alguns edifícios já davam ares de cidade grande - Drogasil, Sampieri, Pagani, Bauru e Terra Branca. A Praça Machado de Melo, com o imponente prédio da estação, estava sempre repleta de gente que embarcava e desembarcava nos trens da Noroeste, Paulista e Sorocabana, como nos ônibus intermunicipais que ali também faziam ponto. O comércio se concentrava nas ruas Batista e 1.º de Agosto. Nesta última ficavam os cines Bauru, Capri e São Paulo. Sábados e domingos à noite a banda tocava no coreto e as famílias, que levavam as crianças para ouvi-la, aproveitavam para ver as bonitas vitrines da Rua Batista. O centro da cidade era uma festa permanente.

A cidade foi crescendo. Cada novo edifício que surgia era festejado pelos seus admiradores, como o saudoso Silvio Telles Nunes, que fazia questão de fotografar e convidar os amigos para irem ver. A Matriz foi substituída pela Catedral; as instalações acanhadas do BTC deram lugar à majestosa sede social e às modernas piscinas e quadras de tênis; três modernos hotéis - Cidade, Alvorada e Colonial - melhoraram a recepção de visitantes; a Prefeitura saiu do Edifício Concórdia, na Rua 1º de Agosto, para ocupar o Palácio das Cerejeiras; o Jardim Estoril deu expansão às habitações mais modernas. Assim a cidade foi crescendo e acompanhando a modernização, para contentamento de muitos “bauruistas”, como o jornalista Roberto Rufino, mas enquanto aplaudimos esse progresso não temos como não olhar com tristeza para o centro da cidade. Casas e até edifícios são abandonados, como pode ser observado na quadra 7 da Av. Rodrigues Alves; o prédio da estação está se degradando; o Cine Bauru, ressurgido em prédio novo, também acabou; a Rua Batista, transformada em calçadão, já não tem mais as vitrines. Bastante movimentada durante o dia, após as 20 horas, como as demais ruas do centro, torna-se deserta e perigosa à circulação de pessoas. Nem é preciso comentar mais porque tudo isso está aí à vista de todos.

Não vislumbramos nenhuma possibilidade de reverter essa situação porque, infelizmente, esse tem sido o destino das principais cidades do Brasil, à medida que vão crescendo e se modernizando. São Paulo, conforme foi crescendo, o centro foi se deslocando da região da Sé, onde ainda existem edifícios majestosos como o do Banespa, para a região da República, depois Paulista e agora se desloca para a Faria Lima e Berrini e o centro velho vai expandindo e piorando. Com o Rio de Janeiro, Salvador e Recife - a Veneza Brasileira - aconteceu a mesma coisa. São Paulo vem tentando revitalizar o “centro velho” desde a década de 1980, sem resultado. E não adianta criar espaços culturais, como a “Sala São Paulo”, porque a vida da cidade está nas residências e não nos prédios com outra finalidade.

Passados 56 anos que a acompanhamos, Bauru aumentou em sete vezes a sua população e se mostra bonita e pujante. Como cidade seu futuro continua promissor. Enquanto isso o centro caminha em sentido contrário. Em busca de conforto e segurança as residências vão continuar se afastando e com elas os supermercados, as lojas, os bares e restaurantes, os bancos, os hotéis, o shopping, as clínicas, as farmácias. Haverá outro destino para o centro? Vamos ficar atentos na nova tentativa de São Paulo de repovoar o centro velho, começando pelo quadrilátero da Luz a Santa Ifigênia. Quem sabe servirá de exemplo para salvarmos o centro de nossa cidade.

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru