Há aproximadamente seis semanas, viajando para São Paulo, no primeiro viaduto da rodovia que liga a Marechal Rondon à Castelo Branco, por volta das 9h, impressionei-me com um homem tentando cometer o suicídio e sendo seguro por dois outros que estavam no peitoril dessa ponte. Nesse momento, estacionava uma viatura do glorioso Corpo de Bombeiros. Essa imagem não sai da minha cabeça, semelhantemente àquela que presenciei em São Paulo, de pessoas se atirando no ar, durante o incêndio do Edifício Joelma, nos idos de 1973 (se não me engano). Que desespero e sensação de impotência que se sente nessa hora.
Assistindo aos depoimentos de jovens freqüentadores da cracolândia, na Capital paulista, é mesmo chocante ouvir de um jovem tamanha desesperança em tudo e em todos. O que leva a pessoa a chegar nessa banalização da vida, em que para ela nada mais é importante? Quantos entram para esse mundo das drogas conscientes de sua autodestruição? O mesmo o fazem os tabagistas, que nem as fortes fotografias impressas nos maços os sensibilizam da bomba de efeito tardio para doenças, limitações e mortes agonizantes. Já ouvi fumante brincar que, ao comprar um maço, escolhe a fotografia do terminal de câncer em vez do impotente sexual. Que humor horroroso! Ver um fumante com enfisema pulmonar recebendo oxigênio no hospital, na luta para respirar é outra imagem que presenciei e não consigo esquecer.
A reportagem da revista Veja mostra a angústia de quem vive na fronteira, uma doença que começa a ser conhecida e divulgada. Quanta angústia cerca o ser humano. As próprias células quando não conseguem vencer a adversidade entram em suicídio denominado apoptose ou “suicídio celular”. Será que nossos políticos, ao desviarem verbas, fazerem maracutaias, esperar datas próprias para sua imagem para inaugurar hospitais, laboratórios, creches, leis, saneamento básico e remédios não sabem que podem provocar desespero aos necessitados, levando-os ao fundo do poço, onde somente o pensamento fixo em “acabar com tudo isso” parece ser a única solução encontrada?
Assistimos atônitos os acontecimentos nos níveis dos governos municipais, estaduais e federais, nas esferas policiais e jurídicas, entre tantos outros também da vida em sociedade, que podem levar à desesperança e às suas conseqüências. O que pode pensar um jovem sem um lar, sem carinho, sem comida, sem receber qualquer manifestação de amor, sem qualquer perspectiva de futuro? O que orbita em sua mente é “por que eu também não posso ser feliz?” Na procura de respostas e fugas, o final parece ser um apelo forte para estancar esse sofrimento. A falta de identidade definida pode ser atribuída, segundo as últimas notícias, ao desespero vivido pelo astro americano Michael Jackson. Viver é um desafio diário e saber como estabelecer parâmetros de felicidade parece ser o grande problema do ser humano atual, vivendo numa sociedade onde o ter vale mais que o ser. Onde são atribuídos falsos valores, que depois se mostram vazios e inconsistentes.
Nessa novela ‘Caminho das Índias” é interessante observar, segundo sua autora, os valores das culturas orientais e ocidentais, variando reações diferentes frente ao mesmo problema. Está na hora da sociedade dar uma forte resposta a todos os caminhos que levam à morte por infelicidade do ser humano. Como diz o padre Beto, em seu comentário diário no rádio: “O lugar para ser feliz é agora e onde você está”. Para Barack Obama, o lema de campanha foi “sim, nós podemos” e vejam quantas conquistas já ocorreram mundialmente e quantas cabeças adotaram esse lema, procurando a utopia de uma vida melhor para todos, com o ideal a ser alcançado, onde nunca mais se leia uma notícia sobre suicídio.
O autor, Arnaldo Pinzan, é professor da FOB-USP e diretor social do Lions Clube de Bauru Centro