10 de julho de 2026
Política

BNDES amplia crédito do ‘pós-crise’

Por Fábio Zambeli | Da APJ especial para o JC
| Tempo de leitura: 8 min

Na esteira das previsões de retomada do crescimento da economia, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) reduziu as taxas de juros a patamares próximos de zero para financiar a ampliação da capacidade produtiva da indústria e os investimentos em infraestrutura e inovação. O objetivo é fazer frente ao provável aumento da demanda por produtos e serviços e conter a pressão inflacionária no segundo semestre deste ano e em 2010, tranqüilizando os mercados.

É o que revela o presidente do banco, Luciano Coutinho, em entrevista à Associação Paulista de Jornais (APJ). Para o economista, guindado ao comando de uma das vitrines do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o cenário macroeconômico exige ousadia na concessão de recursos para longo e curto prazos.

“O grande esforço do aumento do crédito que impediu que a economia brasileira tivesse entrado numa recessão viciosa se deveu aos bancos públicos brasileiros. E o BNDES se orgulha de ter sido um dos esteios desta atuação, respondendo por um terço deste esforço de sustentação do crédito”, diz. As linhas ofertadas pelo principal banco público de fomento do país são operadas a índices de 3,5% a 4,5% ao ano, o que, descontada a inflação do período (próxima de 4%), leva o crédito ao ‘juro real zero’, na matemática do governo.

“É fundamental para criar capacidade de oferta de bens e serviços, antecipadamente, de tal maneira que quando a demanda crescer, a oferta já cresceu, e com isso, o risco de criar gargalos de inflação seja controlado”, acrescenta.

Após injetar R$ 25 bilhões na Petrobras, ele admite as dificuldades para que o banco contemple as pequenas e médias empresas, embora credite ao segmento uma crescente participação nos desembolsos - hoje, 24% do montante liberado. “O BNDES tem uma certa dificuldade de chegar às pequenas empresas, mas o cartão tem estimulado. Temos hoje uma presença das micro, pequenas e médias empresas no orçamento do BNDES. Hoje, representam 23%, 24% do orçamento total, o que é muito relevante.”

Coutinho promete socorrer setores da cadeia produtiva combalidos pela escassez de crédito internacional, notadamente as empresas exportadoras. A fórmula prevê a integração dos pólos fabris paulistas com os parques tecnológicos em fase de estruturação. O próximo pacote de ajuda deverá financiar o segmento de autopeças, com amparo do fundo garantidor, que dará aval à busca de recursos.

“O mercado interno está recuperando, mas a exportação não vai se recuperar. Como fazer para evitar que nossas autopeças pereçam ou se debilitem, como está acontecendo nos Estados Unidos. Das dez grandes autopeças americanas, nove estão em processo de falência. Não podemos permitir que isso aconteça aqui no Brasil.” Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Associação Paulista de Jornais - Como o BNDES tem atuado no sentido de inibir os efeitos da crise econômica no setor produtivo?

Luciano Coutinho - O BNDES tem atuado de maneira muito incisiva desde o início da crise, em setembro de 2008, com a quebra do Lehmann Brothers. Em várias frentes. Uma primeira, importante, foi buscar acelerar os investimentos em infra-estrutura especialmente em energia, saneamento, logística, transportes. Os desembolsos do banco nestes setores aumentaram significativamente nos últimos meses. Desde o último trimestre do ano passado e no primeiro semestre deste ano.

APJ - Esse esforço inclui a Petrobras.

Coutinho - Outra área importante que o banco teve uma atuação muito grande anticíclica foi a área de petróleo e gás. Estamos apoiando o processo de investimentos da Petrobras. Asseguramos um financiamento de longo prazo à Petrobras, que deu tranqüilidade à Petrobras. Deu condições à Petrobras para acelerar seu programa de investimentos.

APJ - E o crédito para exportação?

Coutinho - O BNDES promoveu uma série de ações para mitigar os efeitos da crise às empresas que haviam sido afetadas por perdas cambiais. Atuamos em conjunto com os bancos privados, induzindo-os a refinanciar os débitos destas empresas e, em seguida, ajudar a reestruturação destas empresas, muitas delas competitivas e importantes para a economia do país e que não poderiam quebrar sem graves prejuízos para a sociedade brasileira.

APJ - A ação do banco chegou a pequenas empresas?

Coutinho - O banco se engajou em buscar mitigar os efeitos da crise sobre as pequenas empresas. Uma ação mais rápida do banco se deu por meio do cartão BNDES, cujos limites foram ampliados de R$ 250 mil para R$ 500 mil. Os prazos foram ampliados, a taxa de juros foi reduzida. Desta forma, os desembolsos do cartão BNDES têm subido mais de 200%. O que tem beneficiado mais de 200 mil pequenas empresas nos últimos meses.

APJ - O que falta para o BNDES atingir de forma objetiva e rápida o micro e o pequeno empresário?

Coutinho - O BNDES tem uma certa dificuldade de chegar às pequenas empresas, mas o cartão tem estimulado. E mostra que o BNDES, através de produtos inovadores, consegue chegar às pequenas. Temos hoje uma presença das micro, pequenas e médias empresas no orçamento do BNDES. Hoje, representam 23%, 24% do orçamento total do BNDES, o que é muito relevante.

APJ - O senhor diria que a necessidade de projetos mais qualificados seria o principal entrave?

Coutinho - No caso do cartão, o crédito é aberto automaticamente. O que existe é uma lista de fornecedores que permite à empresa utilizar o cartão como capital de giro para comprar insumos, para comprar máquinas e equipamentos. Agora, tem outro papel importante, que é a Linha Finame, que dá a possibilidade de financiar máquinas, equipamentos, ônibus, caminhões. Está acessível a qualquer pequeno empresário. Neste caso, não existe um processo demorado. É um ato comercial de compra que é liquidado e transacionado num prazo muito curto. É claro que um projeto de investimento que pressupõe uma unidade fabril nova, num terreno novo, vai exigir uma avaliação da capacidade de pagamento, da consistência do projeto. E isso, naturalmente, leva algum tempo. Dependendo, porém, da modalidade, não é verdadeira a afirmação de que é demorado o processo no BNDES.

APJ - A intervenção do Estado tem sido decisiva, mas quando haverá a descompressão? Ou seja, quando o setor privado recuperará seu lugar como financiador da produção?

Coutinho - Temos esperança de que o setor privado se torne mais propenso a financiar. E de uma maneira mais cautelosa, com spreads mais baixos, o sistema empresarial brasileiro. Porque ele está deixando de cumprir um papel importante. Temos a expectativa de que isso se inverta. Porque a economia já cruzou a linha crítica. O mercado de trabalho foi mantido, a massa de salários não caiu. O emprego já voltou a crescer.

APJ - Quais indicadores sustentam essa avaliação?

Coutinho - No primeiro semestre deste ano, por exemplo, a venda de automóveis ter recuperado e crescido um pouco em relação ao ano anterior. Poucos países têm demonstrado esta capacidade de resistência à crise. E o Brasil já mostrou. Quero louvar o papel muito firme desempenhado pelo ministro da Fazenda (Guido Mantega), que não se acovardou diante da crise. Ofereceu incentivos de redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), mesmo com a receita tributária caindo. A economia está recuperando o crescimento do consumo e é chegada a hora de acelerar os incentivos para o investimento.

APJ - Quanto à taxa de juros, é possível crer na manutenção em um dígito no cenário pós-crise?

Coutinho - Sua pergunta é boa. Me permite fazer um registro positivo quanto à atuação do Banco Central, que foi também corajoso e reduziu as taxas de juros. A taxa Selic está em 8,75%, a mais baixa dos últimos 20 anos, muito favorável. Temos toda a tranqüilidade em imaginar que a taxa real de juros no Brasil pode encontrar um patamar muito mais baixo do que o do passado recente. No passado recente, o juro real brasileiro sempre esteve acima de 8, 9 ou 10%. Agora, estamos em torno de 4,5%. É possível? É possível estabilizar o juro num patamar real mais baixo, em torno do que se encontra hoje. Para isso, é preciso que a retomada do crescimento no segundo semestre de 2009 e em 2010, 2011, seja acompanhada da recuperação dos investimentos. É fundamental para criar capacidade de oferta de bens e serviços, antecipadamente, de tal maneira que quando a demanda crescer, a oferta já cresceu, e com isso, o risco de criar gargalos de inflação seja controlado.

APJ - Como tem sido o diálogo do BNDES com setores da cadeia produtiva nas vocações e nos pólos produtivos regionais do Estado?

Coutinho - Temos tido um diálogo freqüente e permanente com as cadeias produtivas. Primeiro quero dizer que este conjunto de medidas traz um benefício grande para o Estado de São Paulo, que é o principal Estado manufatureiro brasileiro e é a principal base de serviços sofisticados do Brasil. Por exemplo, uma obra de infra-estrutura é numa região remota, mas a produção dos equipamentos é feita em São Paulo. Toda esta política anticíclica é muito benéfica para o Estado de São Paulo. Mas, além disso, o Estado é um exportador importante. E as cadeias exportadoras estão sofrendo muito mais. O crescimento brasileiro está sendo sustentado pelo nosso mercado interno, felizmente. Mas a exportação está prejudicada pela crise das grandes economias, especialmente a norte-americana e a europeia, que é uma crise longa, difícil. Portanto, as perspectivas da exportação não são tão positivas assim.

APJ - O País se descolou da crise?

Coutinho - O Brasil já se descolou e vai ser descolar ainda mais da crise mundial. É uma das economias que vão ajudar o crescimento. E isso não é o presidente do BNDES que está dizendo. É a expectativa dos mercados. Os mercados estão corrigindo a expectativa de crescimento. O número de 2010, que era de 3,5%, está subindo para 3,7% e vai chegar para 4% ou 4,5%, que é nosso prognóstico para o ano que vem.