Brasília - A abertura de processo por quebra de decoro parlamentar contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), e o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), pode ser a senha para uma saída negociada que livre os dois senadores de punição. A reunião do Conselho de Ética, que seria hoje, deve ficar para a semana que vem.
Apesar da posição refratária do líder do PMDB, Renan Calheiros (PMDB-AL), petistas e governistas avaliavam ontem ser necessário iniciar um processo de distensionamento da crise e que o melhor caminho seria abrir os processos contra Sarney e Virgílio.
Abertos os processos contra os dois senadores, a avaliação é que o instinto de sobrevivência levaria peemedebistas e tucanos a aceitar uma votação no Conselho de Ética que os arquivasse em definitivo.
O PT, embora tenha adiado novamente uma decisão sobre a crise após reunião de sua bancada ontem, decidiu votar favoravelmente ao desarquivamento de pelo menos um processo contra Sarney, segundo a reportagem apurou. Trata-se do que o relaciona à contratação do namorado de uma neta pelo Senado, por meio de ato secreto.
O líder da bancada, Aloizio Mercadante (SP), deve liberar o voto dos três representantes do partido no Conselho de Ética - João Pedro (AM), Ideli Salvatti (SC) e Delcídio Amaral (MS) -, mas tem a expectativa de que todos votem favoravelmente à abertura desse processo contra o presidente da Casa.
Com isso, crescem as chances de o PMDB, em retaliação, abrir processo contra o tucano Virgílio, acusado de ter empregado no Senado um assessor que estudava na Espanha.
Mais à frente, segundo o roteiro traçado, os dois processos se “anulariam”. Uma possibilidade em discussão é o tucano e o peemedebista receberem no máximo uma advertência.
“Bonito processo”
Mesmo sem reunião marcada, o presidente do Conselho de Ética, senador Paulo Duque (PMDB-RJ), apresenta hoje sua decisão sobre o pedido do PMDB de abertura de processo contra Virgílio. Duque encomendou parecer pela abertura do processo, mas a decisão ainda não estava tomada até ontem à noite.
Ele adiantou que se trata de um “bonito processo” que merece ser analisado. Virgílio é acusado, entre outras coisas, de manter funcionário fantasma no seu gabinete por mais de um ano. “O Senado vai se engrandecer com a minha decisão”, afirmou Duque.
Plenário
Ontem, um passo para reduzir a temperatura política na Casa foi dado com um pedido de desculpas do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) pelo bate-boca com Renan Calheiros, na semana passada, em plenário. Renan chamou Tasso de “coronel de merda” e ouviu de volta que era “cangaceiro de terceira categoria”.
“Foi um acontecimento deplorável. Eu queria publicamente aqui dizer da minha insatisfação comigo mesmo, lamentar profundamente e pedir desculpas aos meus pares senadores e à população brasileira por ter me comportado de uma maneira que não seria adequada a um senador”, disse Tasso.
O presidente do Senado tentou ontem se escorar no apoio de Lula. Ao receber políticos do Amapá, voltou a dizer que o real objetivo dos que o atacam é atingir o presidente.
“Estamos numa casa política. Pelo fato de minha luta ter algum peso na sucessão desencadeou-se essa crise para enfraquecer o presidente da República”, afirmou.