Muitos consumidores não dão atenção às taxas de juros para financiamentos e grande parte dos vendedores não faz questão de informá-los. Parece “clichê”, mas, antes de fazer qualquer compra, sem conhecer ao certo o peso dos juros que está comprometendo-se a pagar, ainda vale a velha dica dos economistas: pesquisar e, em regra geral, preferir sempre o pagamento à vista.
Uma pesquisa realizada em nove grandes redes de varejo pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio) aponta que a diferença de preço entre o pagamento à vista e a prazo de um refrigerador da mesma marca, por exemplo, é de até R$ 220,26. A reportagem do JC foi até o Calçadão da Batista de Carvalho para verificar os preços dos eletrodomésticos, campeões de venda nos últimos meses devido à redução do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI), e encontrou disparidade ainda maior.
Um refrigerador duplex pago à vista custa R$ 1099,00. Na mesma loja, o valor do produto parcelado em 16 vezes sobe para R$ 1.758,40, diferença de R$ 659,40. Isso significa que o consumidor paga cerca de 60% a mais do valor do produto à vista.
Em outra loja, um fogão à vista custa R$ 659,00. Já a prazo, o consumidor paga 20 parcelas de R$ 49,90, o que resulta no valor final de R$ 998,00, ou seja, R$ 339,00 a mais. Em outro estabelecimento, uma geladeira simples, de uma porta, à vista custa R$ 699,00; para pagamento parcelado em até 13 vezes, o preço sobe para R$ 908,70. Neste caso, a diferença é de R$ 209,70.
O economista Cláudio Gonçalves, membro do Conselho Regional de Economia de São Paulo, afirma que, em tais casos, os juros cobrados são muito altos, se comparados com a inflação do ano, que ficou na casa de 4,2%. “É por isso que, em regra geral, o pagamento à vista sempre é o aconselhável. O consumidor que paga à vista tem os maiores benefícios, já que pode negociar”, explica. “Se o consumidor chega na loja para comprar um produto que já tem o preço à vista declarado, por exemplo, e ele informar o pagamento no ato, geralmente consegue mais algum desconto, que pode chegar a 5%. O que é muito bom, se comparado a inflação”, acrescenta o economista.
Para quem não tem o dinheiro para pagamento à vista, a dica é poupar e adiar o consumo até contabilizar o valor necessário. “Agora, se o consumidor tiver necessidade imediata do produto e não puder adiar a compra, ele deve verificar se as parcelas cobradas cabem no orçamento”, revela Gonçalves. “Nesse caso, não cabe fazer conta de matemática financeira, pois os juros sempre são altos. Mas sim verificar se terá condições de honrar com o compromisso das prestações, para não se tornar inadimplentes. Ele tem que analisar se o valor das parcelas pode ser pago e se terá condições de pagar todas as prestações”, complementa.
A pesquisa divulgada pela Fecomercio também aponta a diferença de preços que existe entre os produtos. O mesmo refrigerador pode ter uma diferença de até R$ 158,45 de uma loja para outra. “Nos casos estudados pela Fecomercio, o consumidor pode achar produtos vendidos com um juro mensal que vai de 1,7% (22% ao ano) a 3,3% (44% ao ano)”, afirma Antonio Carlos Borges, diretor executivo da Fecomercio.
Por isso, outra dica importante é pesquisar se as lojas trabalham com tabelas diferentes de financiamento e sempre verificar o número de parcelas. “Em uma loja X, por exemplo, o valor da prestação é de R$ 100,00. Já na loja Y, o valor é de R$ 80,00. Mas no primeiro estabelecimento, o pagamento é feito em 12 parcelas, já no segundo, são 24 parcelas. Nesse caso, compensa pagar R$ 20,00 a mais por mês e em menos prestações, pois o consumidor vai pagar menor valor pelo produto”, afirma Gonçalves.
O economista explica que isso acontece porque quanto maior o prazo para pagamento, maior o risco do lojista ter prejuízo com a inadimplência. Diante da situação, ele inclui no financiamento o provável não-pagamento por meio das taxas de juros.