09 de julho de 2026
Articulistas

O jardineiro e os dois criados

José Renato Ferraz da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Depois de quatro meses, sem escrever um único artigo, retorno a esse fulcro espaço do Jornal da Cidade para me despedir e, ao mesmo tempo, agradecer aos leitores do JC que me acompanham desde 2006. Este último artigo, objetivo transmitir uma mensagem otimista, mesmo para aqueles que perderam a fé, na espécie humana; ainda mais, quando olhamos, atentamente, para os eventos nauseantes, repugnantes e sórdidos, que ocorrem, com maior freqüência, em nosso Senado Federal.

Sem dúvida, vivemos em uma sociedade que é uma verdadeira feira de ladrões e oportunistas. As carreiras fazem-se pelo oportunismo. Os escritores mais aplaudidos, os filmes mais admirados, pintam e pregam o cinismo. A maldade compensa; alimenta as notícias dos jornais. O sadismo compensa; inspira os romances que melhor se vendem. As fórmulas mágicas dos “vencedores”, nos livros de auto-ajuda, são pílulas para acalmar o nosso cotidiano massacrante. O pedantismo, a obscuridade, o indivíduo vadio, preguiçoso e aproveitador compensam; são tidos por indícios de profundidade. Os Big Brothers, Fazendas e outros programas associados à competição hobbesiana premiam a mediocridade, baixeza, esperteza e vilania dos indivíduos. Isso reflete cada vez mais em nossos comportamentos individualistas e egocêntricos.

Na sociedade midiática do século 21, apegamos a falsos ídolos, amamos “heróis” criados, semanalmente, pela indústria cultural. Alienamos e criamos em nosso íntimo desejos e vontades que nunca “estão satisfeitos” ou preenchidos. Respeitar os verdadeiros valores nem sempre é, longe disso, assegurar uma vida tranqüila. Mas é garantir um espírito em paz consigo próprio. Não é possível querer que todos os homens sejam bons.

Há abutres em todos os ramos da selva humana. Ladrões que nos espreitam nas saídas dos bancos. Estupradores e pedófilos aterrorizam meninas e meninos nas ruas e no cyber-espaço. Políticos mentem descaradamente, apoderam-se do que é público e nos intimidam com seu poder, força política e econômica.

Ao longo da nossa vida, vamos encontrar canalhas asquerosos; seremos traídos por indivíduos que consideramos amigos; sofreremos por coquetes que nem um suspiro mereciam; seremos caluniados de maneira tão estúpida que cortará nossa respiração e ficaremos sem saber o que responder; seremos enganados por patrões que diziam sermos homens de confiança. É a vida! E se fomos tapeados, nessas diversas situações, seremos chamados de ingênuos e estúpidos pelos nossos queridos amigos e pais.

“Todas as manhãs temos que dizer para nós mesmos; hoje vou ter que me haver com um importuno, um ingrato, um brutal, um velhaco”, dizia o imperador romano Marco Aurélio. Temos que dizê-lo porque é verdade.

Em contrapartida, encontraremos a mais inesperada dedicação, o mais dedicado amor, de pessoas que, muitas vezes, julgamos ser indiferentes ou frívolas. Descobriremos que até mesmo os maus são capazes de caridade. É verdade! Outra verdade é que enquanto formos feliz, contaremos numerosos amigos. Se vierem tempos sombrios, ficaremos só, como canta Ovídio; mas engana-se o poeta; é no infortúnio que encontraremos os verdadeiros amigos. Se obtivermos sucessos demasiado freqüentes, por muito merecidos que eles sejam, teremos inimigos. É a lei da selva humana. Porque é impossível agradar a toda a gente. O nosso êxito há de irritar indivíduos que, muitas vezes, não cobiçavam os mesmos lugares, o mesmo público. É engraçado!

Por outro lado, falaremos e sempre falamos demais com franqueza para indivíduos que não suportam a franqueza. Uma palavra irônica ou com duplo sentido bastará para arranjar um inimigo para toda a vida. Os homens têm uma pele muito sensível; quando se critica alguém, mesmo com fundamento, fere a alma, e essa ferida assemelha-se a uma chaga. Um mau contato pode despertar um ódio feroz.

Os meus conselhos: não responda ao ódio pelo ódio; vivamos com quem nos quer bem; confiemos no nosso poder da vontade e sejamos fiéis às promessas, aos contratos, aos outros e a nós mesmos. Devemos ser daqueles que nunca enganam. Por mais que as pessoas no enganem.

A verdadeira vida está perto de si. Está nas flores do nosso jardim, no sorriso das crianças, no abraço do pai, no beijo da mãe, amantes que se apertam um ao outro, na saudade de alguém querido que já se foi. Devemos voltar à verdadeira vida, aos prazeres e aos afetos. A vida é demasiado curta para ser pequena. Adeus!

O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é cientista político, doutorando em ciência política pela PUC-SP e mestre em ciência política pela PUC-SP - e-mail: jreferraz@hotmail.com