10 de julho de 2026
Geral

Barriga e sistema imunológico são vilões de gestante com gripe

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 4 min

Mais de um quarto das mortes registradas no País por conta da gripe A (H1N1), a gripe suína, foram de gestantes. Em Bauru, uma mulher grávida que estava com a gripe morreu, na última segunda-feira. Ela era moradora de Piratininga e, por isso, o caso foi registrado no município vizinho. As unidades de saúde da cidade mantêm gestantes sob tratamento contra o vírus.

Mas por que elas são as principais vítimas da gripe suína? Uma das hipóteses aponta que o vírus ainda é desconhecido pelo organismo e, por isso, o sistema imunológico da gestante reage de forma desproporcional ao problema, o que torna o combate à gripe muito mais difícil. Outra possibilidade é o volume abdominal, que leva a gestante ter reduzida sua complacência pulmonar - a capacidade do pulmão se expandir.

Por recomendação da Secretaria de Estado da Saúde, as gestantes da rede pública ou privada que atuam no atendimento ao público ou em tarefas que possam apresentar risco de contágio, deverão ser remanejadas. Caso não seja possível, elas deverão ser afastadas sob licença. A Prefeitura de Bauru resolveu ampliar a ação e transferiu todas as servidoras grávidas que trabalham no atendimento à população.

A imunologista Maristela Pastore Oliveira avalia que uma das possibilidades é a de uma reação mais violenta do sistema imunológico. “Acredita-se que é uma resposta exacerbada. Uma tentativa do organismo de proteger a mãe, mas de uma forma exagerada, pois o vírus é desconhecido pelo corpo. Isso pode levar a uma infecção muito grande e a paciente não conseguiria se recuperar”, pondera.

O secretário municipal da Saúde, Fernando Monti, médico infectologista, informa que ainda não há explicação sobre o motivo das gestantes estarem no grupo de risco e entre as principais vítimas. “A gestante possui um sistema imunopreventivo relativo. Uma vez que o feto não é ela, a natureza criou uma maneira de não rejeitá-lo. O ser humano possui dois tipos de sistema imunológico, o celular e de anticorpos. Durante a gestação, a mulher tende a ter uma imunidade celular reduzida e a de anticorpos exacerbada. Nessa relação, poderia estar a base da explicação”, observa Monti.

Outra hipótese observa que o volume do abdômen da gestante aumenta durante a gravidez, reduzindo a capacidade do pulmão em se expandir. De acordo com o secretário de Saúde, é a mesma possibilidade verificada para pessoas obesas.

Monti ainda ressalta que a evolução da doença na cidade está menos incisiva. “Felizmente, há redução na gravidade dos casos. Entre as gestantes, passamos a tratá-las assim que apareciam os sintomas da gripe. Dessa forma, houve diminuição na gravidade”, avalia.

Maristela explica que o tratamento de gestantes diagnosticadas com a nova gripe é feito com o antibiótico adequado, o fosfato de oseutamivir, comercializado como Tamiflu, e corticóides. “Os corticóides possuem ação antiinflamatória e buscam modular a reação do organismo”, explica.

Ela orienta as gestantes a evitar contato com pessoas doentes e continuar trabalhando, desde que em atividades que não as coloquem em contato com o público, além de sempre higienizar as mãos. “E o mais importante é ingerir muito líquido, muita fruta e, ao menor sinal de gripe, procurar um médico”, diz.

Prevenção/

Os advogados Juliana Cristina Pizone e Ricardo Henrique Renófio estão aguardando seu primeiro filho. Com dois meses de gestação, Juliana afirma que está preocupada com a evolução da gripe A na cidade. Para não correr riscos, evita sair do trajeto casa-trabalho-casa. E até essa rotina pode mudar, uma vez que a empresa onde atua decidiu que a advogada irá trabalhar em sua residência, a partir da próxima semana.

Há duas semanas, Juliana não faz nem as compras da casa, tarefa que ficou a cargo de Ricardo. “Não estou mais almoçando em restaurante, vou à casa da minha sogra. Além disso, há uma semana que ando com um frasco de álcool em gel na minha bolsa”, conta.

Na empresa, uma colega que está no oitavo mês de gestação adiantou a licença. “Temos álcool disponibilizado para higienização do local de trabalho e também das mãos. O ambiente está sempre arejado”, conta. Mesmo assim, ela conta que o casal está apreensivo. “Não podemos bobear”, afirma a advogada.

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Prefeitura

Seguindo a orientação da Secretaria de Estado da Saúde - que recomenda a transferência de gestantes que atuam no atendimento ao público, ou seu afastamento sob licença - a prefeitura remanejou as servidoras grávidas.

De acordo com o prefeito, Rodrigo Agostinho, os secretários foram orientados a transferir as gestantes em caráter imediato. Porém, a possibilidade de licença ainda está em estudo. “Tiramos as servidoras grávidas do atendimento ao público. Mas uma dificuldade é a questão da licença. Como não há regulamentação sobre isso, está sendo verificada a legalidade da medida”, explica o prefeito.