Imagine duas fábricas que vão à falência por incompetência administrativa. A conseqüência é que os donos continuam suas vidas com um padrão financeiro privilegiado enquanto que os trabalhadores caem na rua do desemprego. “Intervenção - Fábricas Ocupadas” conta a história das fábricas Cipla e Interfibra, desde a tomada pelos trabalhadores até a intervenção policial-militar, quando decorreram cinco anos.
Em 31 de maio de 2007, centenas de homens armados da Polícia Federal arrancaram de dentro das instalações os membros da comissão de fábrica eleitos pelos operários empossando um interventor federal. A polícia cumpria um mandado judicial a pedido do governo Lula, que cobrava uma dívida deixada pelos antigos donos. Os trabalhadores e seus líderes falam das suas lutas, do dia-a-dia nas fábricas ocupadas, da redução da jornada de trabalho de 44 para 30 horas semanais, da continuação da produção e do bom andamento das fábricas.
Mas também narram o pavor durante a intervenção, todo tipo de humilhação a que foram expostos, angústias e perspectivas. O Movimento das Fábricas Ocupadas no Brasil continua e se reagrupa com o apoio de entidades sindicais e de movimentos sociais do mundo inteiro. Na verdade, o que está como pano de fundo é o Estado a serviço das Oligarquias que prefere esconder as incompetências destas ao invés de prestigiar a vida dos trabalhadores, do povo que deveria representar.
No Evangelho de Mateus, capítulo 22, 15-21, Jesus se vê diante de uma armadilha. Fariseus (representantes do povo Judeu) e pessoas do partido de Herodes (representantes de Roma) fazem a seguinte pergunta: “é licito ou não pagar impostos a César?” Se Jesus respondesse que não, ele estaria se declarando contra Roma e se dissesse que sim, ele estaria se colocando em favor de Roma. As duas posições levariam Jesus a uma condenação, seja por parte do poder romano seja por parte dos judeus.
Jesus para escapar da armadilha lhes dá uma resposta aparentemente evasiva: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Esta resposta, porém, não é uma simples fuga a uma armadilha, mas remete a uma reflexão teológica e política: “Afinal, o que é de César e o que é de Deus?”
A loucura dos césares era convencer a todos de que o César era deus e, portanto, tudo lhe pertencia, até mesmo a vida de seus súditos. Aqui nós temos um grau extremo de narcisismo, como o de Napoleão, Hitler, Stalin e também das oligarquias que dirigem o nosso País. Todos estão a seu serviço e tudo lhes pertence. Esta é a fundamentação principal do pagamento de impostos a César, afinal, a terra dos judeus lhe pertence. Jesus, porém, prega a existência de outro Deus.
Um Deus criador do universo que gratuitamente nos presenteia este mesmo universo para que sejamos co-autores na criação. Portanto, o universo não é propriedade de um determinado ser humano ou de uma determinada classe, mas de toda a humanidade. O que pertence a César é de Deus e sendo de Deus, é de todos. Se o universo foi entregue à humanidade para que haja vida e vida em abundância, o universo é de domínio público. Até mesmo a propriedade privada que possuímos no sistema neoliberal deve possuir uma função social, ou seja, a produtividade, o emprego para outras pessoas gerando, assim, o movimento da vida. Se a propriedade privada deve ter uma função social, o que falar do papel do Estado.
Este não deve ser um “Leviatã”, no sentido de Tomas Hobbes, um monstro que nos retira a liberdade para que possamos viver em “segurança”, mas uma instituição criada pelos homens para estar a serviço do bem de todos. Aqui está o sentido dos impostos. O imposto é uma forma de contribuição de cada um para que as necessidades básicas de todos sejam atendidas: educação, saúde, seguro-desemprego, aposentadoria, etc. O imposto é uma forma de partilha que pagamos não a “César”, mas a nós mesmos. A fala de Deus em Isaias deixa bem claro: “Eu sou o Senhor, não existe outro: fora de mim, não há Deus”.
Esta afirmação não pode ser utilizada para um fundamentalismo religioso e contra o diálogo entre as diversas religiões, mas contra uma mentalidade que leva a crer que alguns seres humanos possuem mais privilégios que outros seres humanos. A frase deve ajudar a destruir a forma extrema de narcisismo que garante privilégios a determinados seres humanos em detrimento de outros. Se Deus é um só, todos os seres humanos são irmãos e possuem direitos e deveres diante do bem comum de todos. Portanto, não deveríamos nos dividir em classes sociais, em castas religiosas ou raças. Preservando nossas individualidades e a pluralidade cultural, racial e sexual, nós, seres humanos, temos o direito de viver como filhos de Deus usufruindo de tudo que o universo nos oferece. O Estado, por sua vez, não deve ser um instrumento a serviço de poucos, mas deve proteger o bem-estar de todos contra a ganância e a prepotência de poucos. Isso o Estado tem condições de fazer e é para isso que nós o pagamos com o nosso dinheiro.