11 de julho de 2026
Regional

Instituto Paulo Kobayashi vai discutir o retorno dos dekasseguis ao Brasil

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 8 min

Após as comemorações do centenário da Imigração Japonesa no Brasil, a comunidade nipônica discute os próximos 100 anos. O tema “Construindo os próximos cem anos” é o foco das discussões da II Semana da Cultura Japonesa em Lins. Idealizado pelo Instituto Paulo Kobayashi com o apoio de várias entidades, a semana teve como objetiva dar continuidade e manter viva as discussões ocorridas na época das comemorações do centenário. O presidente do IPK, Victor Kobayashi ressalta que, o instituto foi criado há 4 anos, após a morte do pai dele, Paulo, para dar apoio e atendimento às associações sem fins lucrativos, o terceiro setor. “Não exclusivamente a comunidade nipo-brasileira, mas 70% das ações do instituto estão ligadas as comunidades nikkeys. Para ganhar corpo, realizamos vários eventos e apoios na cidade de São Paulo, dentre eles a reurbanização da praça da Liberdade, o Tacada Cidadã que ensina população carente do entorno da represa do Guarapiranga a jogar golfe. O próximo passo é expandir para o Interior. Essa semana já é sinônimo dessa tendência. Esta semana é um exemplo de que estamos querendo vir para o Interior para apoiar as entidades locais e regionais.”

De acordo com ele, o fórum “Construindo os próximos cem anos” vai reunir três segmentos da sociedade: poder público, iniciativa privada e organizações do terceiro setor . No final das discussões será elaborada a Carta de Lins, com as conclusões, recomendações e diretrizes que regerão o futuro da comunidade japonesa no Brasil. “Acredito que o envolvimento dessas três vertentes da sociedade é essencial para a implantação e desenvolvimento de projetos de cunho social e cultural.”

Para o presidente, uma das metas é reintegrar os dekasseguis que estão retornando do Japão e outra, fazer crescer a interação entre as comunidades brasileiras e a japonesa. “Esses encontros, proporcionam a interação e ajudam a desenvolver a cultura. A cultura japonesa cooperou com a brasileira na agricultura, educação, artes marciais, culinária. Através de eventos podemos mostrar um pouco dessa integração, da cultura japonesa integrada à sociedade brasileira. Em São Paulo e nas grandes metrópoles, a gente vê com mais nitidez o bom relacionamento entre as comunidades.”

Esta semana foi uma oportunidade de ambas as comunidades se conhecerem através da culinária, degustação, jogos, filmes, workshop, entretenimento e muita discussão, exposição de quadros da família mabe. “Teve um grande baile de salão que reuniu 600 pessoas , 400 da Capital, o restante do Interior, Araçatuba, Bastos, Osvaldo Cruz, Promissão, Lins e microrregião.”

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Fenômeno dekassegui

Na década de 80, os descendentes de japoneses foram para o Japão em busca de uma vida melhor, trabalho e pagamento em ien. Quase 30 anos depois, devido à crise, os dekasseguis estão retornando. Alguns deles com filhos que nasceram no país do Sol Nascente. Essas crianças, nasceram e foram alfabetizadas no Japão. O retorno delas para o Brasil é uma questão a ser resolvida.

Para o presidente do IPK, Victor Kobayashi o retorno requer a reintegração na sociedade brasileira. “É uma preocupação, esse é um dos temas dos painéis que vamos discutir na II Semana da Cultura Japonesa. Vamos unir o governo, as associações, iniciativa privada e terceiro setor, além das pessoas interessadas para saber qual é a melhor maneira de reintegrar essa população à nossa sociedade.”

De acordo com ele, a grande maioria ficou em média de 10 anos no Japão e estão retornando. “Com a mentalidade completamente diferente. Os filhos desses dekasseguis que estão retornando muitos deles não sabem escrever em português, mas alguns falam em português.” Para resolver a problemática, o assunto está sendo levado para a Secretaria Estadual da Educação. “Estamos pensando em reforço escolar, especialmente porque não são só os filhos dos dekasseguis que estão retornando, mas também do pessoal que estava morando na Europa, nos Estados Unidos.” A questão do emprego é outro item que preocupa a comunidade oriental. “Muitos terão que se readaptar e trabalhar de maneira diferente. Precisamos fazer a reinclusão social deles.”

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Dança Contemporânea

O grupo de dança Sansey saiu de Londrina/Paraná para mostrar na II Semana da Cultura Japonesa que a dança japonesa diversificou e acompanhou a transformação do público oriental. “É uma dança contemporânea que conserva características da tradicional, mas traz vários elementos novos”, explica a instrutora Aline Kashinioki.

Segundo ela, o grupo apresentou dois tipos de dança durante o workshop. O Yosakai Soran e Matsuri dance. “O Yosakai Soran é uma dança que veio do Japão. É recente, este ano foi realizado o 18o festival de Yosakai no Japão. Para um país milenar é uma dança nova. É uma mistura de dois estilos. Tem alguns elementos da dança japonesa, mas é mais rápida, vibrante, mais alegre, uma das características é força, energia.”

Para manter a tradição, o grupo usa leque e taiko. “É obrigatório o uso de chocalho japonês de madeira.”

Já o matsuri dance é um derivado do bom odori. “O termo matsuri dance foi criado por nós. É como se fosse bon odori com música do pop japonês. É mais rápida, tem passos de funk, todo mundo rebola, todo mundo dança junto.”

No mesmo clima foi a apresentação do professor de taiko Daiki Nagao que estava pela quarta vez no Brasil. Eclético, o músico também toca flautas. “O segredo do taiko é descoberto por cada um. É um instrumento que toca as pessoas com seu som. O importante é não esquecer de agradecer a fauna e flora pela madeira e couro, base do taiko. Depois é só se divertir.”

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Imigrantes chegaram em 1916

A cidade de Lins tem pouco mais de 72 mil habitantes, deste total, 750 famílias são orientais e descendentes . A Associação Beneficente Cultural Esportiva de Lins (Abicel). Os imigrantes japoneses chegaram em 1916 e foram direto para a agricultura. Hoje, eles já não estão mais trabalhando na terra, mas continuam no município, alguns são empresários.

Segundo o vice-presidente da Abicel, Yuji Oota, a semana da cultura é também sinônimo de intercâmbio, uma vez que une várias comunidades de diversas partes do Estado de São Paulo. “É uma maneira do oriental que escolheu o Interior para morar, conhecer e trocar idéias com aqueles que estão nos grandes centros urbanos. Várias Caravanas chegaram para as competições de Gateball. ”

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Cerimônias para chás

Reza o costume japonês que tomar um chá exige uma espécie de ‘ritual’. Há cerimônias voltadas para o ato de servir e ingerir o chá, seja ele da espécie que for. O japonês tem o hábito de tomar chá e no Japão há mais de 32 tipos de chá verde. Um chá para cada ocasião. Porém, o clima do Brasil e o costume pouco difundido não fez do País o maior consumidor. Para reverter essa situação, as marcas trabalham para encontrar um sabor que fuja do amargo e que ao mesmo tempo mantenha as propriedades da bebida.

Na II Semana da Cultura Japonesa houve degustação de chás. Segundo a demonstradora Isabela Nishimurota , o sabor do chá depende do tipo de colheita, do seu corte, do tamanho da folha dentre outras coisas. “No Japão, o chá faz parte de cerimônias importantes, eles têm o hábito de tomar chá desde manhã. O clima de lá, ajuda.”

Na busca por um sabor que agrade os brasileiros descendentes de japoneses, foi desenvolvido um chá verde que, misturado ao arroz integral tostado, tem um sabor mais suave. “O brasileiro não está acostumado com sabor amargo, intenso. Este tipo de chá é mais suave.”

O chá verde, segundo a demonstradora, é antioxidante, ou seja, retarda o envelhecimento, tem flúor, queima o colesterol ruim e tem ateína, que acelera o metabolismo, contribuindo para o emagrecimento.

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Bebida é sinônimo de riqueza

O saquê, uma bebida tipicamente oriental é também símbolo de riqueza e prosperidade no Japão. É usado em cerimônias especiais. São 11 tipos diferentes. No Brasil, a bebida é mais consumida em forma de caipirinha, embora seu teor alcóolico varie de 14 a 16%, teor comparado à de um vinho.

A demonstradora Isabele Nishimurota frisa que o hábito de ingerir a bebida é do japonês, até porque o saquê importado é diferente do brasileiro. “O saquê japonês tem qualidade de água e arroz, o sabor não tem álcool predominante.”

Para perpetuar a tradição, o saquê com flocos de ouro é o ideal para presentes, especialmente quando a ocasião exige.

Kiuzo Nishi, 80 anos, aproveitou a oportunidade da Semana Cultural Japonesa em Lins para experimentar os vários tipos de saquê. “Eu gostei e vou adotar a bebida.”

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Inauguração do campo de gateball

Durante a semana foi inaugurado o campo de gateball, aonde foram desenvolvidos um campeonato e um torneio. O esporte, que tem entre seus adeptos maioria de orientais com idade superior a 60 anos, é dos poucos que atendem as necessidades desse público específico.

Emiko Ikeda, 68 anos, joga gateball há 10 anos e saiu da Capital para participar da inauguração do campo e do campeonato onde o grupo de Cafelândia foi o campeão. Aposentada como enfermeira, ela encontra no jogo o exercício ideal da paciência. “Eu jogo no Clube Butantan em São Paulo e viajo para participar dos campeonatos. Para mim é importante esses encontros. É onde faço novos amigos.”

Liki Saito Kumasaka tem 75 anos e há 14 anos pratica o gateball. Ela faz parte do time campeão, de Cafelândia, cidade vizinha a Lins. Para ela, o esporte é também motivo de viagens, inclusive para o exterior. “Eu já participei de campeonatos na Argentina, Peru e São Paulo. Acho ótimo participar desses encontros. É onde conhecemos pessoas e passamos a ter novos amigos.”