Como sabemos, a luta por um pedaço de terra começa muito antes da existência do MST. No Brasil já tivemos vários exemplos famosos de luta pela terra, como a “Guerra de Canudos”, “O Contestado”, as “Ligas Camponesas”, entre outros. Desde o início da constituição de nosso país a distribuição de terras foi desigual e concentradora, vide as “capitanias hereditárias”, onde o reino português dividiu o território brasileiro em quatorze faixas de terra, doadas a doze donatários.
Mesmo com o avanço do capitalismo no Brasil e com o desenvolvimento das cidades e industrialização do campo, diferente do que aconteceu em muitos países de capitalismo desenvolvido, a Reforma Agrária não saiu e o latifúndio continuou prevalecendo se camuflando nas novas formas de produção agrária. Ao contrário, ele expandiu, expulsando e expropriando os pequenos agricultores que por motivos óbvios não conseguiam competir no intenso mercado capitalista.
Mas o sistema que criou as indústrias agrícolas, modernizou o campo, também criou o trabalhador assalariado do campo. Os camponeses que antes trabalhavam nos seus pequenos pedaços de terra, com suas próprias ferramentas, foram obrigados a procurar emprego nas novas indústrias que surgiam - não nos esquecendo que muitos migraram para os grandes centros urbanos - o que, de certo modo, concentrou o número de trabalhadores e os unificou em torno de algumas reivindicações comuns, como Reforma Agrária.
Dessa nova organização dos trabalhadores do campo eclodem as “Ligas Camponesas”, que seria a primeira organização a lutar abertamente por Reforma Agrária. Depois de algumas conquistas as Ligas Camponesas foram massacradas pelo governo ditatorial de 1964, seus líderes foram torturados e assassinados. A ditadura projeta então uma reforma agrária às avessas, devolvendo aos latifundiários suas terras. Hoje assistimos algo parecido com a regularização da grilagem na Amazônia destinando terras de até 500 hectares sem licitação (quando na Constituição se estabeleceu apenas 100 hectares).
Com a abertura democrática a reivindicação latente dos trabalhadores, passa a ganhar corpo novamente, a Reforma Agrária torna-se o fantasma que ronda os latifundiários brasileiros com a criação do “Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem- Terra” (MST). A partir de janeiro de 1984, com o lema “Terra para quem nela trabalha”, o MST pressiona o novo governo, com ocupações das terras improdutivas e devolutas. Hoje, sem sombra de dúvidas é um dos maiores movimentos sociais do mundo, tendo conquistado grandes avanços no que tange a Reforma Agrária.
O MST faz 25 anos de existência e de luta contra as injustiças de um modelo produtivo excludente. Em comemoração, uma Marcha saída de Campinas em direção à capital expressa mais uma vez a necessidade de mudanças na condução do país. Contudo, expressou também a maneira como o país trata os seus trabalhadores. A trabalhadora Sem- Terra Maria Cecília Neves, 58 anos, conhecida como Baixinha, do Acampamento Rosa Luxemburgo, em Iaras-SP, faleceu ontem (6/8/2009) após um caminhão ter avançado sobre a Marcha atingindo a companheira.
Quantas vidas ainda precisarão ser ceifadas? Nos entristece saber da morte de mais um lutador social como as vidas de Chico Mendes, Doroty Stang, João Pedro Teixeira, o episódio de Eldorado dos Carajás, entre tantos outros em nossa história. Por outro lado, esses lutadores só reafirmam a preeminência da construção de uma sociedade mais justa. “Aos nossos mortos, nem um minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta!” (MST).
Saulo Rodrigues de Carvalho - professor da rede pública de ensino e militante do PSOL