O noticiário da última semana aponta mais uma violência da junta militar que governa Mianmar: Suu Kyi, Prêmio Nobel da Paz, foi condenada a mais 18 meses de reclusão. Seu crime foi o de receber a visita de um cidadão norteamericano sem ter pedido permissão aos governantes do país.
Suu Kyi já passou 14, dos últimos 20 anos, sob prisão. Estes 18 meses adicionais irão impedi-la de participar de eleições presidenciais que talvez ocorram no ano que vem. Diante dos fatos, a comunidade política internacional mostrou-se indignada: protestos veementes vieram dos EUA, da França e da Inglaterra. Outros discursos inflamados, em defesa das normas democráticas em Mianmar, serão produzidos. E ninguém fará nada para punir os militares ou para defender Suu Kyi, porque os ditadores têm o apoio da China.
E por que a China, que desde 1949 está sempre do lado de quem não presta, apóia a ditadura de Mianmar? A explicação é de ordem geopolítica: no extremo sul do continente asiático, abaixo da Península Malaia, localiza-se o Estreito de Malaca. Com extensão de 800 quilômetros, o Estreito de Malaca separa Cingapura da Indonésia. Esta é a rota anual de 60 mil cargueiros, transportando um terço do comércio mundial; pelo estreito trafegam 80% das importações chinesas de petróleo.
A comunidade internacional, no que se refere ao Estreito de Malaca, preocupa-se com a pirataria e com os ataques terroristas do braço indonésio da Al-Qaeda, conhecido como Jemmah Islamiyah. Estas preocupações justificam a presença da marinha norte-americana na região. Os mariners realizam patrulhamento sistemático, utilizando um porta-aviões, dois submarinos nucleares e duas ou três dúzias de contratorpedeiros e fragatas.
Eis o cenário inesperado do confronto entre o dragão chinês e a águia norteamericana: a China precisa do petróleo, que passa pelo Estreito de Malaca, para manter sua pujança econômica, e sabe que qualquer entrave ao crescimento causaria instabilidade social e destruiria a legitimidade do regime comunista. Como a Marinha dos EUA transformou-se na polícia do Índico, existe a possibilidade de que, num eventual conflito entre China e Taiwan, os EUA fechem a passagem de Malaca, estrangulando a economia chinesa.
Eis um risco que causa arrepios nos corredores do Grande Palácio do Povo, a sede do governo comunista chinês. Como reduzir a vulnerabilidade comercial, no curto prazo? Como sair logo do “Dilema da Malaca”? A solução encontrada foi a de se construir um oleoduto de 1.200 quilômetros, atravessando um país chamado Mianmar: os petroleiros viajariam 3.300 quilômetros a menos e não passariam mais pelo fatídico estreito.
Mianmar ganhou este nome em 1989, quando um violento golpe de Estado derrubou os governantes da antiga Birmânia. Com a nova e exótica denominação, o país tornou-se uma das mais violentas ditaduras do planeta. Diante dos abusos contra os direitos humanos, promovidos pelos generais, o Ocidente decidiu isolar Mianmar com sanções econômicas. Ameaças que lançaram este país do Sudeste Asiático para a esfera de influência chinesa, que usa seu direito de veto, na ONU, para proteger o novo aliado.
Acostumada a colocar seus interesses comerciais acima de qualquer outra preocupação, a China bajula os generais sanguinários de Mianmar para se livrar do “Dilema de Malaca” e, ao mesmo tempo, prospectar as enormes jazidas de petróleo e gás existentes no litoral da Baía de Bengala. A ditadura também recebe o apoio chinês para a construção de estradas, hidrelétricas, instalações portuárias e militares.
Os generais de Mianmar divertem-se massacrando os movimentos populares que exigem redemocratização. De quebra, imolam os monges budistas que se colocam ao lado dos clamores do povo. Estamos diante de um banho de sangue que, patrocinado pelos interesses geopolíticos chineses, se desenrola diante dos olhos complacentes da comunidade internacional.
O autor, Ney Vilela, é professor de História Contemporânea da Universidade Sagrado Coração e Coordenador Regional do Instituto Teotônio Vilela