Imagina-se que a Terra tenha abrigado vida, em suas formas mais simples, desde há 3,9 bilhões de anos. Os fósseis de animais mais antigos datam de 800 milhões de anos. Mas a vida em nosso planeta foi abalada por cinco extinções em massa. O primeiro cataclisma, de origem desconhecida, ocorreu em algum momento entre 550 e 530 milhões de anos atrás. Em um artigo na revista Science de 25/07/1997, pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia afirmaram que uma das piores conseqüências desse evento foi um deslocamento da rígida crosta exterior da Terra sobre suas camadas interiores. O resultado final foi uma mudança de 90 graus na direção do eixo de rotação da Terra: regiões que antes ficavam nos Pólos foram deslocadas para o Equador e vice-versa.
Outra grande extinção da vida na Terra ocorreu entre os períodos permiano e triássico, há cerca de 245 milhões de anos. Sob circunstâncias misteriosas, 96 % de todas as espécies foram eliminadas de um só golpe. O astrônomo Gerrit Verschuur, da Universidade de Memphis, comenta que nenhuma oscilação da natureza pode justificar o súbito desaparecimento de tantas espécies ao mesmo tempo. Alguns outros especialistas afirmam que a atividade vulcânica desempenhou papel de destaque neste e nos demais processos que se seguiram a este; outros levantam a hipótese de aumento drástico no nível do mar, de perturbações climáticas gravíssimas que só possibilitaram a sobrevivência dos poucos mais aptos.
A mais recente extinção de grande porte se deu há 65 milhões de anos, no limite entre o cretáceo e o terciário. Hoje, todos os cientistas aceitam que esse evento foi causado por um gigantesco objeto vindo do espaço com, no mínimo, 10 quilômetros de diâmetro e que se espatifou contra a extremidade norte da Península de Iucatã no México, a uma velocidade aproximada de 30 quilômetros por segundo. Deixou a cratera de Chicxulub com quase 200 quilômetros de diâmetro, causou a extinção dos dinossauros, liquidou com 75% de todas as outras espécies que viviam sobre a Terra, mas abriu espaço para que a família dos mamíferos experimentasse significativa diversificação.
Nos dois últimos séculos, os astrônomos aprenderam muito sobre o sistema solar e sobre o espaço próximo ao nosso planeta e nada daquilo que descobriram é reconfortante. Pelo contrário, enquanto a Terra dá a volta no Sol a uma velocidade constante de quase 110 mil quilômetros por hora, ela passa várias vezes por áreas repletas de detritos cósmicos. A maior parte do entulho é constituída por pequenos meteoros que se queimam sem maiores danos quando atravessam nossa atmosfera na forma de estrelas cadentes. Há objetos maiores que explodem no céu e outros mais volumosos que atingem o chão.
Como a superfície da Terra é dinâmica e sujeita a contínua erosão e deposição, com o passar do tempo, até as maiores crateras acabam desaparecendo. Além disso, como a água cobre, aproximadamente, sete décimos da superfície do planeta, a lógica mais simples sugere que a maioria dos impactos deva ocorrer nos oceanos. Apesar disso, cerca de 200 crateras de porte foram identificadas com segurança, distribuídas pelo nosso planeta e mais de cinco, em média, são encontradas todos os anos.
O astrônomo Ducan Steel, chefe do Programa SpaceWatch, na Austrália, estima que ainda não se descobriu 1% das estruturas de impacto sobre a Terra. Segundo ele, centenas de crateras ainda estão sob a cobertura florestal da bacia amazônica, sob a tundra das regiões árticas, sob as dunas de areia do norte da África e da Arábia e sob os 70% da superfície coberta pela água.
Quanto mais aprendemos sobre o vasto arsenal de projéteis que voam pelo espaço, mais facilmente se compreende como nosso vizinho Marte - que pode ter sido um planeta “aconchegante” - foi reduzido a um mundo estéril. Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol, está brutalmente marcado por crateras e, como Marte, parece ter sido privado de grandes segmentos de sua crosta.
Se em nossa imaginação observarmos o sistema solar “de cima”, ou seja, do norte, veremos que todos os planetas circundam o Sol no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio. A maioria também gira no sentido anti-horário em torno de seu eixo. A exceção notável é Vênus, segundo planeta a partir do Sol, que gira no sentido oposto ao de sua revolução. A explicação, costumeiramente aceita, para a rotação retrógrada de Vênus é que, em algum momento de sua história, ele foi atingido por um golpe tão forte que sua rotação cessou momentaneamente e depois recomeçou em sentido oposto.
O que aconteceu com Mercúrio, Vênus e Marte é, na verdade, norma entre os planetas interiores. A sobrevivência da Terra como ecossistema funcional é difícil de explicar. A Terra, esfera reluzente de luz e consciência, voando pelo espaço escuro, é uma espécie de milagre. Platão descreveu-a como um planeta abençoado.
O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru