Bariloche - A segunda reunião da Unasul (União de Nações Sul-Americanas) em um mês, ontem, em Bariloche, transformou-se num bate-boca que, embora em termos contidos e diplomáticos, aprofundou o impasse entre os 12 países da região. Na berlinda, por permitir que tropas americanas usem bases militares colombianas, Álvaro Uribe reclamou da “ameaça de intervencionismo político na Colômbia’’.
Uribe e o venezuelano Hugo Chávez polarizaram o encontro com pitadas teatrais. Uribe mostrou fotos dramáticas de famílias trucidadas na Colômbia, cobrando “corresponsabilidade” contra o narcotráfico e elogiando os EUA por se envolverem nesse combate. O acordo EUA-Colômbia foi que detonou a atual crise no grupo.
Já Chávez leu trechos de um documento das Forças Armadas dos EUA, que classifica a base colombiana de Palanquero - 1 das 7 incluídas no acordo militar entre os dois países - como “base expedicionária” na estratégia de mobilidade americana em caso de guerra.
O documento, cujo subtítulo é “Estratégia Global de Bases de Apoio” e cuja existência a Folha de S.Paulo já revelara no último dia 3, põe em xeque a versão tanto dos EUA quanto da Colômbia de que o acordo militar entre os dois países é exclusivo para combate ao narcotráfico, restrito ao território colombiano e sem objetivos militares.
Apesar do impacto que o documento causou, a maioria dos demais presidentes não caiu na isca de focar as discussões nas suas implicações e de transformar a reunião num ato de condenação a EUA e Colômbia.
Alan García (Peru) ironizou Chávez, Michelle Bachelet (Chile) relativizou a importância do texto, “que pode ser de uma unidade militar menor”, Tabaré Vazquez (Uruguai) disse que o momento é de convocar “a paz”.
O Pentágono, reagindo a Chávez, disse que o texto é “tão somente um documento acadêmico, como tantos outros”.
Evo Morales (Bolívia) e Rafael Correa (Equador) falaram longamente num tom de condenação à Colômbia. Lula, Bachelet, Cristina Kirchner (Argentina) e Fernando Lugo (Paraguai) mantiveram uma posição consensual: crítica ao acordo Colômbia-EUA, mas sem atacar Uribe.
O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, não conseguiu conter hoje a sua irritação durante a Cúpula da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), com a extensão dos discursos e com a decisão de permitir que as discussões sejam transmitidas ao vivo. “Quando parecia que a reunião havia acabado, passamos a discutir tudo de novo. Tem presidentes que falaram três ou quatro vezes’’, disse Lula, visivelmente irritado.
Lula e Cristina consideraram que a abrangência desse acordo extrapola em muito a necessidade de combate às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), que nunca estiveram tão frágeis.
“As bases dos EUA na Colômbia existem desde 1952 e não solucionaram o problema, então, que outras coisas poderiam ser feitas para resolver?”, disse Lula. Uribe corrigiu: “As bases não são dos EUA”.
“Combate ao narcotráfico se faz com inteligência e contra-inteligência. Aviões C-17 ou radares de amplo alcance não me parecem os instrumentos adequados. A base de Palanquero parece mais compatível com gerra convencional”, disse Cristina.
Imprensa
Ao chegar, Uribe falou com jornalistas para expor uma quase exigência: de que os debates fossem transmitidos pela TV para os telões da sala de imprensa. Numa votação simbólica, os demais presidentes concordaram, e apenas um condenou a decisão: Lula.
Segundo ele, uma reunião desse tipo perde o sentido se é aberta, “porque cada um passa a falar para o seu público interno, e a reunião se perde”.
Em meio ao clima ruim, e sem perspectiva de alguma conclusão, os presidentes perfilaram-se para uma foto que deveria simbolizar integração, mas, neste momento, a realidade é o oposto disso.
Na declaração final, eles tentaram contemplar todos os lados, propondo a criação de mecanismos para tornar mais transparentes as informações na área de defesa, ratificando a retórica do combate comum ao narcotráfico e determinando que se analisasse o documento evocado por Chávez.
Alan García, maior aliado de Uribe na região, lançou a idéia de que as decisões passem a ser por maioria, não mais por consenso. Porque, por consenso, nada se conclui de concreto.