Os países da Europa Central (Alemanha, Hungria, Polônia, República Tcheca e Eslováquia, por exemplo), que por séculos estiveram sob o domínio de grandes impérios (principalmente o Russo e o Austro-Húngaro), talvez sejam os mais apegados à preservação da história. “Esses povos passaram por diversas invasões. Isso faz com que sentissem a necessidade de manter as próprias tradições, no sentido de se firmarem enquanto nações”, explica a historiadora Terezinha Zanlochi, professora da Universidade do Sagrado Coração (USC).
Nesses países, o poder público costuma demarcar para preservação todos os lugares que demonstrem possuir algum significado histórico ou cultural. Em Varsóvia, na Polônia, existe um Museu da Vodca, enquanto em Amsterdã, na Holanda, existe um local dedicado especialmente à história da maconha - o Hash Marihuana & Hemp Museum.
A idéia de se preservar as coisas significativas para determinado povo remonta ao conceito de patrimônio - palavra que eqüivale, em inglês, a “heritage”, o mesmo que herança. “Antes da Idade Média, havia entre os europeus a noção de que o ‘pater familias’ (pai de família) teria de acumular bens para deixar aos seus descendentes”, explica Zanlochi.
A preocupação com o patrimônio histórico demorou para ganhar contornos institucionais no Brasil. Isso ocorreu apenas em 1937, com a fundação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan) - sucedido pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
Enquanto isso, a Europa já possuía uma longa tradição de apego aos objetos e locais de interesse histórico. “A preocupação com a questão do patrimônio surgiu num contexto sociopolítico marcado pelo início do processo de globalização. Os povos passaram a olhar para tudo aquilo que os definisse enquanto nacionalidades. Quem não sabia o que era seu corria os risco de ser invadido e dominado”, explica Zanlochi.
No Brasil, país originado a partir dos interesses privados das elites coronelistas, houve uma dificuldade maior de se desenvolver uma noção coletiva de patrimônio. “Por muito tempo, não tivemos um projeto nacional, mas sim um conjunto de aspirações setoriais ou mesmo pessoais”, observa a historiadora.