09 de julho de 2026
Articulistas

Agricultura e meio ambiente

Luiz Alberto Coradi
| Tempo de leitura: 4 min

O artigo “A roça fica muito longe”, publicado no“Opinião” do último dia 19, atribui à agricultura toda a culpa pelos problemas ambientais. Baseado em estatísticas, muitas vezes distorcidas, o texto não menciona que a principal causa do aquecimento global, a queima de combustíveis fósseis, em sua quase totalidade decorre de atividades tipicamente urbanas. Isso sem contar o lixo não reciclado, o esgoto não tratado, os resíduos industriais, o desperdício de água tratada, etc. É citado, com outras palavras, o princípio da conservação da matéria, proposta por Lavoisier no século 18: “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma.” Pois os problemas ambientais decorrem, justamente, do desequilíbrio desse processo, causado pelo homem. Se Einstein disse mesmo a asneira “se as abelhas desaparecessem, a espécie humana não duraria mais do que quatro anos” deve ter sido para se divertir entre uma teoria e outra, apenas para confirmar a regra da excentricidade dos gênios. Ninguém pode negar, todavia, que as agressões à natureza, se não reduzidas a um nível aceitável, podem colocar em risco de extinção toda forma de vida na Terra, não apenas do homem. Mas é certo também que a extinção de algumas espécies, tanto vegetais quanto animais, não causou e não causará maiores riscos à nossa permanência no planeta, mesmo porque isso já vem ocorrendo desde que o homem lascou sua primeira pedra.

É ponto pacífico que a expansão das fronteiras agrícolas causou enormes danos ambientais em todo o mundo. Porém, está cada vez mais difícil expandir essa fronteira impunemente, o que tem contribuído para a melhor utilização das áreas já desmatadas, com o cultivo de grãos substituindo pastagens degradadas e o aumento de produtividade das principais culturas, ou seja, maior produção na mesma área cultivada. Tecnologias agrícolas foram incorporadas ao dia-a-dia do agricultor responsável, como a proteção do solo através de plantio em nível, terraceamento, plantio direto, rotação de culturas, controle integrado de pragas, etc.. Um programa reconhecido mundialmente, iniciado no Paraná nos anos 80 e ainda hoje em expansão na nossa região, o Programa de Microbacias Hidrográficas, trouxe e continua a trazer grandes benefícios à conservação de nossos solos e recursos hídricos.

Nossa legislação ambiental, mesmo com uma fiscalização muito aquém do ideal nas regiões mais críticas, é uma das mais avançadas do mundo, embora, às vezes, mais realista do que o rei. O famoso “jeitinho brasileiro” ainda impera, mas com certeza vem perdendo força, pelo menos no campo. Hoje, as imagens de satélite e outras ferramentas disponíveis, podem comprovar um crime ambiental cometido a qualquer tempo e em qualquer lugar.

O “turismo” de produtos agrícolas, muito comum no Brasil, vem decrescendo graças à pesquisa agrícola, que tem desenvolvido variedades adaptadas aos mais diversos tipos de solo e clima.Se hoje um agricultor produz “200 vezes o que produzia em 1950” (?), é graças a isso que estamos vivos, apesar dos estragos que precisamos consertar pelo caminho. Seria ótimo se pudéssemos, todos, os mais de 6 bilhões de habitantes da Terra, e não apenas os mais abastados, consumir somente produtos orgânicos, com certeza mais saudáveis, livres de resíduos de agrotóxicos e produzidos com menor desrespeito à natureza. Só que isso é uma grande utopia. A evolução da agricultura permitiu que driblássemos a teoria/profecia de Malthus, mesmo que a um custo relativamente alto. No entanto, a alternativa seria muito pior.

Dados estatísticos e pesquisas pseudo-científicas são encontrados em abundância hoje em dia na Internet, o que requer a necessária filtragem dessas informações, com base no bom senso e no conhecimento de cada profissional sobre os assuntos de sua competência. Realmente, conforme exemplificado, para a produção de um kg de milho “gastam-se” quase 1.000 litros de água. Porém, ficam nos grãos menos de 150 gramas do líquido. O restante retorna à atmosfera por evaporação e transpiração ou fica nos restos das plantas e são reincorporados ao solo. Se para a produção de 1 kg de carne são consumidos 7 kg de milho em grãos, seria mais correto dizer que gasta-se aproximadamente 1 litro de água, certo? Errado! Como errados estão muitos dos números exorbitantes apresentados no texto. Ambas as interpretações são tendenciosas, pois o cálculo não é tão simples assim. Mas dizer que são consumidos entre 7 e 14 mil litros de água para produzir 1 kg de carne, é o mesmo que dizer que uma usina hidrelétrica “consome” toda a água que passa pelas suas turbinas para gerar energia elétrica, ou seja, um evidente absurdo. Aliás, esse recurso é comumente utilizado para “comprovar” teses que seus autores sabem, tal qual os políticos espertos em seus discursos, que ninguém vai conferir. Ou melhor: quase ninguém.

O autor, Luiz Alberto Coradi, é engenheiro agrônomo