09 de julho de 2026
Articulistas

Lições de ética, honradez e educação

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

Glória Perez deu uma lição de ética e honradez em cena da novela “Caminho das Índias”, que deve ter deixado envergonhados familiares e admiradores de muitos políticos. Inconformados com a possibilidade de eleição da daliti Puja, candidata a vereadora, Opash, numa manobra política, substituiu o candidato de casta, que não tinha possibilidade de vencê-la. Seu filho Amithab, por acaso, viu o filho de Puja, o garoto Hari, com um sininho com a marca da família Ananda (de Opash). Tomou-lhe o objeto e levou-o ao pai, denunciando o menino como ladrão. Como costume relatado na novela, a notícia agitou o mercado e a popularidade de Puja caiu. Tanto Puja quanto Shankar, seu incentivador, apertaram o menino, mas ele não revelou que tinha ganho de sua namoradinha Anusha, neta de Opash. Isso lhe valeu um elogio de Shankar, por não ser delator.

Num comício em que ambos os candidatos deveriam falar, Opash e seus seguidores estavam prontos para explorar o fato. Vendo a iminência de um vexame, Shankar aconselhou Puja a desistir da candidatura, mesmo tendo certeza da inocência de Hari. E foi o que ela fez, indo ao microfone, pedindo desculpas e dizendo que não seria mais candidata. Nesse momento, Anusha não suportou a injustiça, chamou o avô e disse-lhe que foi ela que deu o sininho a Hari. Opash, que não perde oportunidade de falar de sua honradez, nem pestanejou. Foi ao microfone, chamou Puja, pediu desculpas e para que ela mantivesse a candidatura porque sua neta acabava de revelar que o menino não havia roubado e que foi ela que lhe dera o sininho. Puja voltou e foi aclamada. Não houve delação e a palavra foi cumprida.

Comparemos, agora, esse comportamento com os fatos que diariamente ocupam o noticiário dos jornais, TVs, rádios e Internet. Para não irmos muito longe, comparemos com os casos Sarney e do entrevero da ministra Dilma com a Lina, ex-secretária da Receita Federal. Sarney agarra-se ao cargo, faz acusações e busca a cumplicidade dos senadores e até do presidente. E, apesar de não convencer a opinião pública, consegue o apoio do presidente e o arquivamento das denúncias pela Comissão de Ética. Dilma, ignorando as evidências, nega o encontro com Lina e, além da sua exoneração, consegue, também, a exoneração de seus ex-auxiliares. Mercadante revogou a renúncia irrevogável. Como diz o Boris Casoy: “É uma vergonha!”

Alguns poderão dizer: mas este exemplo é um caso de novela. De fato, o exemplo da Glória Perez é uma novela literária, mas possível para muita gente na vida real, menos para a maioria dos políticos. A literatura está cheia de sabedoria, basta prestar atenção no que os bons autores sentem, pensam, falam e fazem através de suas personagens. Salvo engano, Harold Bloom disse: “Se você quiser informações ou conhecimentos, procure os jornais e os livros técnicos, mas se quiser sabedoria, busque na literatura.” Veja esta lição de educação e polidez, dada por Balzac em “A Mulher de Trinta Anos”. Dirigindo-se à sobrinha Júlia, a condessa de Listomère diz: “Se, quando estamos à mesa, uma iguaria não agrada, não devemos enjoar os outros, minha filha.” Comparemos isso com os casos comuns de alguém estar saboreando determinado prato ou se deliciando com um doce e outro vem e diz: “Credo, não sei como você consegue comer essa porcaria”. Ou então, à mesa, aquele que diz: “Vou procurar outra coisa para comer, não suporto essa droga” (para não dizer o palavrão de costume).

O autor, Pedro Grava Zanotelli, é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru