Quem vai viajar no próximo feriado prolongado e pretende levar o carro na oficina para efetuar a devida manutenção preventiva deve preparar o bolso. Nos últimos 12 meses, os preços de serviços e produtos relacionados aos cuidados com automóveis tiveram altas expressivas, maiores do que a inflação.
As autopeças subiram 7,35% desde agosto do ano passado, de acordo com o Índice de Custo de Vida (ICV) do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio Econômico (Dieese), quase o mesmo patamar dos serviços de manutenção em oficinas, que aumentaram 7,77% no período. Ambos os aumentos estão em torno do dobro da inflação no mesmo período, que chegou a 3,77%.
“O custo das peças e produtos como óleo lubrificante aumentou muito no último ano e, infelizmente, não teve como evitar o repasse para o cliente. O que eu faço é comprar em maior volume para permanecer mais tempo com o mesmo preço”, justifica Marcos Leandro de Almeida, proprietário de uma oficina mecânica instalada na Vila Falcão, em Bauru. Segundo ele, os fabricantes tradicionalmente passam a vender seus produtos a preços mais elevados no final do ano, quando os as pessoas costumam usar mais os veículos nas estradas.
As lojas de autopeças também atribuem o acréscimo ao aumento de preços praticados pelo setor industrial e distribuidoras de peças. Na loja gerenciada por Ademir Brunelli Junior, por exemplo, o filtro de óleo que custava, em média, R$ 12,00 no passado, subiu para R$ 14,00. O óleo lubrificante mineral sofreu aumento de R$ 10,00 para R$ 12,00 e a pastilha de freio, de R$ 14,00 para R$ 15,00. “As mercadorias estão chegando mais caras para nós. E como as oficinas são nossos clientes diretos, o consumidor que vai fazer a manutenção do carro também acaba percebendo o aumento”, pondera o gerente.
A majoração foi sentida de perto pela empresária Fátima Borges, proprietária de uma caminhonete fabricada em 2000. Ontem à tarde, ela levou o veículo a uma oficina e gastou R$ 168,00 para substituir os filtros de ar e de óleo, além de trocar o óleo e as paletas do pára-brisas. “Só para trocar o óleo gastei R$ 60,00. Há seis meses, paguei R$ 50,00”, afirma ela que, recentemente, desembolsou R$ 2.800,00 para comprar e instalar um novo cabeçote do motor da caminhonete.
Custo alto
O engenheiro mecânico especialista em carros Marcos Serra Negra Camerini alerta que os custos fixos - como Imposto Propriedade de Veículos Automotores ( IPVA) e seguro - e variáveis, como combustível e reparos são realmente altos. No entanto, ele não vê motivo para que os serviços tenham aumentando tanto de preço e salienta que a alta dos preços deverá prejudicar ainda mais o já desaquecido mercado de veículos seminovos.
“O veículo novo, que recebeu incentivos do governo, só vai precisar de reparos após quatro anos de uso. Já o usado demanda muito mais manutenção. Se o preço do serviço aumenta, o consumidor se sente desestimulado a comprar o seminovo”, frisa.
Para o economista Wagner Ismanhoto, a substituição tributária, que começou a vigorar no início do ano para o setor, foi um dos principais motivos para a escalada dos preços”, afirma.A substituição tributária desloca para um único contribuinte (em geral, a indústria) a responsabilidade de recolher todo o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) de toda a cadeia de comercialização, desde a saída do produto da fábrica até o consumidor final. Para isso, o imposto é calculado a partir de uma base presumida de preço final e de quanto cada empresa na cadeia de produção teria adicionado ao valor da mercadoria. Esses números são projetados pelo Fisco a partir de pesquisas de mercado.
Outro motivo apontado pelo economista, no entanto, refere-se ao aquecimento do mercado de automóveis zero quilômetro, incentivada pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). “Houve um aumento das vendas e, conseqüentemente, por serviços relacionados ao setor automotivo. O carro novo não precisa de manutenção, mas pode ser equipado com uma série de componentes. Com isso, o mercado se sentiu confortável para aplicar alguns ajustes”, comenta.
Ismanhoto destaca que, de maneira geral, o setor de serviços registrou um aumento de custo maior que o da inflação no último ano, mas alerta para a importância de pesquisar preços e a qualidade dos produtos utilizados antes de escolher onde realizar a manutenção do veículo. “Mecânico é igual médico: devemos escolher aquele em quem confiamos, porque os cuidados com o bom estado do carro são uma questão de segurança”, finaliza ele.