08 de julho de 2026
Articulistas

Para que serve a vida?

Paulo César Razuk
| Tempo de leitura: 5 min

Principalmente para nós, engenheiros, que gostamos de objetividade, de planejar, calcular e prever, a grande pergunta que tem que ser feita é: qual é o propósito da vida? Sem a resposta, não poderíamos dar um passo; sem a resposta, podemos tropeçar e apenas ter a esperança de estarmos na direção correta. Para viver significativamente temos que entender o objetivo da existência, o propósito da vida. Caso contrário, como podemos planejar ou como podemos saber se o que estamos fazendo contribui para o progresso ou para o retrocesso do mundo? Como saber se o que estamos fazendo constrói ou destrói?

Vamos fazer um exercício. Imagine que você veio de alguma terra primitiva, chegou a um país civilizado e está hospedado na casa de um amigo. Quando chega a hora de lavar as roupas, você pergunta onde é o rio mais próximo, mas seu amigo lhe diz que existe uma máquina de lavar que tem uma roda que gira e uma porta metálica. Nos fundos da casa, você encontra a máquina, jogas as roupas lá dentro, puxa a mangueira que estava por ali e começa a encher a máquina de água... muito orgulhoso por ter descoberto como a “coisa” funciona. Dali a pouco, seu amigo vem correndo, gritando, porque essa máquina que tem roda e porta de metal, não é uma máquina de lavar, é um carro e você está destruindo o estofamento dele.

Parece um absurdo, não é? No entanto, todos os dias as pessoas operam a “máquina da vida” sem saber se ela é um carro ou uma máquina de lavar. Se não sabemos a função de alguma coisa, não podemos saber se a estamos usando corretamente; se não sabemos para que serve a vida, não podemos saber se o que fazemos nos ajuda ou nos atrapalha. Encontrei uma resposta à essa pergunta quando, via Internet (www.rabbidavidaaron.com), assisti a uma palestra de David Aaron, renomado escritor, reitor do Instituto Isralight, que mantém centros de estudos em Israel e nos Estados Unidos.

Segundo este eminente pensador, o propósito, a essência, o desígnio da vida, é o amor. O amor é a energia que move o mundo, o que nos guia e nos faz prosseguir na vida. Ele continua dizendo que, no começo há apenas você. Para amar, você precisa sair do centro e criar espaço para um outro. O amor só começa quando isto é feito - você “sai do caminho” para dar espaço à outra pessoa em sua vida. O amor verdadeiro não é somente criar esse espaço em sua vida para a outra pessoa, mas também, respeitá-lo e mantê-lo.

Neste instante, é preciso desenvolver uma sensibilidade apurada para perceber como o seu parceiro é especialmente diferente - como é outro. O amor verdadeiro não é cego, ele precisa enxergar as diferenças, as diversidades, o que é bom e o que é ruim. Se conseguirmos ver o que temos em comum com aquele que amamos, como também o que nos diferencia e honrarmos essas diferenças, então podemos dar o próximo passo: a doação de nós mesmos. Simultaneamente, devemos permitir a reciprocidade.

É como abraçar. Para abraçar alguém, você cria um espaço com os braços para incluir quem abraça e a outra pessoa faz o mesmo. Se o “dar” e o “receber” não acontecerem simultaneamente, o relacionamento não funciona. Não é amor, é outra coisa!

Minha mãe, Claire Simão Razuk, ainda hoje me diz: seja bom e justo porque estes dois componentes são os verdadeiros alicerces do amor. A bondade é a entrega de si mesmo, é dizer “o que é meu é seu”, sem restrições ou limitações. A justiça é o respeito que se tem pela outra pessoa, pela sua individualidade, pela sua posição e também, porque não, pelas suas possessões: “O que é seu, é seu... Eu não quero, a menos que você me dê”.

A busca por amor é a busca por alguém que pense diferente e, mesmo assim, nos ajude - nem tanto com as responsabilidades de cada dia, mas com a responsabilidade de amar a cada dia. Isto porque amar é consertar e reparar constantemente e o amor é uma jornada, é um processo contínuo de crescimento e não uma missão a ser cumprida. É um ato sagrado, a forma mais pura de alimentar a alma de outra pessoa, assim como a sua própria. O amor verdadeiro não se origina no corpo e sim na alma. O amor é a predominância do espírito sobre a matéria.

Certa vez, um amigo e também engenheiro mecânico, me contou, melancolicamente, que iria se divorciar e que seu casamento tinha fracassado porque “estava procurando uma Ferrari e acabou comprando um Fusca”. Na verdade, o casamento dele fracassou porque ele queria um carro e não uma companheira. Uma companheira não é um carro, um utensílio qualquer ou uma propriedade. É uma outra pessoa que pode criar um espaço em si mesma para incluí-lo. Um egocêntrico não está pronto para o amor. Ele não conseguiria criar espaço suficiente para a outra pessoa, muito menos respeitá-lo e mantê-lo. Quando um egocêntrico ama, seu amor é egoísta, é condicional: ele ama na condição de que suas necessidades sejam satisfeitas e se a pessoa que escolheu não cumpre o esperado porque sente que está dando mais do que recebe, ele a rejeita. O amor entre um casal, o amor entre membros de uma família e o amor entre amigos são diferentes, é claro! Mas todos têm uma coisa em comum: eles refletem o amor entre os homens e o seu Criador. E como aprendemos este amor? Aprendemos quando crianças, observando nossos pais, nossas famílias, nossos professores. Para que uma criança se torne um adulto amoroso, ela precisa receber e ver amor constantemente.

Portanto, o amor é a base sobre a qual se constrói o mundo inteiro. É a raiz da civilidade e de toda moralidade. Sem amor seria impossível vivermos em paz uns com os outros, respeitar as necessidades uns dos outros e tratar a todos com a compaixão que nós mesmos gostaríamos de receber.

O autor, Paulo César Razuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru