08 de julho de 2026
Articulistas

Ser bauruense...

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O grande poeta árabe Khalil Gibran escreveu que “a terra da gente é aonde temos a nossa alma acorrentada”. Ele era libanês. O povo libanês é culturalmente migrante por fatores de sobrevivência, por razões políticas ou de dissensão religiosa. Dizem que em São Paulo há mais libaneses do que em Beirute. No auge da corrente migratória, a Capital teve mais italianos natos do que em Roma. Aos milhões de seus compatriotas que imigraram, Khalil Gibran dizia que não se constrangessem em amar o novo lar. Mudar de cidade ou de país não significa nenhuma traição à terra natal. Os filhos são “flechas atiradas”. Depois que nasce, ninguém é dono do seu destino. Todos vêm à luz em algum lugar, nem que seja numa manjedoura. É uma questão biogeográfica. Isto não significa que você é um filho ingrato. Nada apaga da memória o gosto do curau feito com o milho que eu e meus irmãos plantávamos no quintal de casa e protegíamos pé por pé, todos os dias, durante meses até a colheita. As sensações da terra natal nunca deixarão de nos impregnar. Sempre provocarão evocações como o cheiro cítrico da mexerica ao fincar a unha do polegar na sua pele firme, descascada ali mesmo, à sombra da árvore. Onde nasci, é onde eu nasci. Mas meu lugar é aqui. Bauru é berço e túmulo de pessoas que eu amei e admirei. Bauru é depositária dos meus sentimentos e tormentos; das minhas flores e das minhas dores; das amarguras e amores. Estou há 45 anos em Bauru, por livre escolha. Já vivi aqui mais tempo do que em qualquer outro lugar. Fui seduzido pela cidade. Aprendi com Cláudio Amantini a torcer e sofrer pelo Noroeste...

O título de Cidadão Bauruense que a Câmara Municipal me outorgou é a certidão que me faltava e que coroa a minha carreira de jornalista iniciada lá na terra onde nasci, há 55 anos. Devo esta honraria ao vereador Marcelo Borges, autor da resolução aprovada também pelos seus generosos pares. Costumo dizer para minha mulher que Marcelo é meu irmão caçula. Conheci-o muito jovem quando chegou a Bauru, vindo de Rio Preto, para estudar na nossa Fundação Educacional. Fui testemunha da sua militância política num momento crucial e perigoso da vida nacional. Encontrávamos sob regime de exceção. Depois, trabalhei com ele, com Moussa Tobias, com Antonio José Miziara na Cohab. Sei que não existe exemplo maior de dignidade pessoal e de seriedade no trato da coisa pública. O título de cidadania que a Câmara me concedeu, agrega o valor de ter partido de uma pessoa íntegra, que honra a Casa de Leis.

A Câmara Municipal de Bauru, felizmente, já purgou as danações de que foi vítima no passado, por falta de juízo ou de excesso de cultura patrimonialista de alguns poucos. Este, um mal nacional. Hoje, vemos que do Legislativo brotam boas idéias. Existe um desejo incontido de se fazer o melhor pela cidade e o seu povo. Os vereadores já deixaram claro que os poderes são interdependentes, mas devem trabalhar em harmonia, sem perder de vista o bem comum. Receber um título de uma Instituição tão honrada e importante para a vida da cidade é mais um motivo para me sentir condecorado.

A questão histórica não é bem como ser lembrado, mas como ser menos esquecido. Eu sei que as pessoas me lêem, mas não tenho ilusões. Se o jornal não fosse bom, eu não teria leitores. Por isso, agradeço ao Érico Braga, a Renato Zaiden por fazerem um bom jornal, manterem uma emissora de rádio de padrão. São poucos os que têm a coragem de valorizar velhos jornalistas, num País onde a velhice é uma indignidade. Franciscato acertou mais uma vez quando entregou o Jornal da Cidade aos eficientes, e sobretudo éticos, Érico e Renato. Souberam transformar o JC numa “instituição” bauruense de interesse público. Aos amigos que manifestaram sua solidariedade implícita ou explícita, o meu muito obrigado. Como diz a canção imortalizada por Frank Sinatra, My Way, “Amei, ri e chorei. Tive falhas e minhas derrotas. Mas, o importante, é que fiz tudo a minha maneira”.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC