08 de julho de 2026
Geral

Opinião: Uma espada de dúvidas que transpassa a alma

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

A leitura do livro “No Princípio Era o Poder: Uma análise semiótica das paixões no discurso do Antigo Testamento”, da bauruense Mariza Bianconcini Teixeira Mendes, é capaz de despertar emoções dúbias no mais incrédulo dos mortais. Trata-se de uma obra ousada, a começar pela bem sucedida tentativa da autora de utilizar os aparentemente inconciliáveis métodos dos teóricos Greimas e Pêcheux em seu modelo de análise.

A ousadia também se manifesta no objeto que a pesquisadora escolheu para analisar: o Antigo Testamento, um dos discursos fundadores de nossa cultura (e por que não, de nossos temores mais profundos?).

Dissecar o texto bíblico - e conhecer suas brechas e incoerências - é uma experiência que ao mesmo tempo fascina e atormenta (poderíamos dizer, talvez, religiosa?). É uma chance que temos de satisfazer a nossa mais profunda vontade de saber - aquele mesmo impulso que teria levado Adão e Eva a serem expulsos do Paraíso; aquele desejo incontrolável e iconoclasta de se apoderar as verdades que antes se encontravam sob domínio dos guardiões do sagrado.

Desnudar a verdade suprema é também destruir sua aura. Eu, que fui educado na tradição católica (e até hoje sou fiel praticante, apesar de conhecer as inconsistências da fé que professo), senti como se uma espada de dúvidas tivesse transpassado minha alma após ler o livro.

Mas, tudo o que era sólido em meu íntimo se desmanchou no ar? Longe disso. As teias de dominação dessa narrativa “mítica” que molda a humanidade há milênios são mais poderosas do que podemos imaginar. De minha parte, continuo reservando espaço em meu panteão aos mitos que refrigeram minha alma.

É evidente que as experiências irão variar de pessoa para pessoa. É provável que os apontamentos feitos pela autora ao longo da obra em nada abalem as convicções dos castelos fortes da fé. É possível até que alguns venham a rejeitar por completo as hipóteses da autora, sem ao menos se darem ao trabalho de folhear o livro.

Seria esta, porém, a atitude mais sensata para alguém que se diz fiel a uma verdade superior? Numa época em que o conhecimento é sinônimo de riqueza e poder (bens que o “Senhor dos Exércitos” prometeu aos seus escolhidos, caso eles o servissem cegamente), seria aceitável alguém rejeitar algo antes mesmo de conhecer?

Para se conhecer as idéias da autora, é preciso ler o que ela escreveu. Posso garantir que se trata de uma experiência prazerosa, capaz de mexer com nossas paixões mais primordiais.

Como o lançamento oficial de “No Princípio Era o Poder” será apenas na próxima sexta-feira, a maioria das pessoas ainda não teve a oportunidade de conhecer as idéias ali apresentadas. Essa foi a razão pela qual, diferentemente do que manda a “bíblia” do bom jornalismo, não entrevistei pessoas que pudessem confrontar as opiniões da professora Mariza.

Elas não teriam base teórica para questionar as posições da pesquisadora. Nada impede, porém, que num futuro próximo, voltemos a nos debruçar sobre esse discurso que há séculos vem moldando nossas almas e mentes.

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Para autora, o sobrenatural não existe

Mariza Bianconcini Teixeira Mendes, autora do livro “No Princípio Era o Poder: Uma análise semiótica das paixões no discurso do Antigo Testamento” (Editora Fapesp), foi criada em uma família que professava a fé católica.

“Eu não me lembro de ter visto nenhuma Bíblia em nossa casa. Em todo caso, tanto minha mãe (Maria Generosa de Carvalho) quanto minha avó (Ovídia de Paula Braga) costumavam me contar histórias bíblicas. Narravam com uma riqueza enorme de detalhes. Eu ficava impressionada, assim como ficava espantada ao ouvir o conto de ‘João e Maria’, abandonados pelos próprios pais na floresta”, afirma.

Por volta dos 7 anos de idade, Mariza já costumava se questionar sobre as inconsistências presentes na narrativa bíblica. Na introdução do livro (página 20), ela conta: “Era muito estranho o discurso bíblico! Como podia um deus dizer para a escuridão: ‘Faça-se a luz’? Esse deus vivia na escuridão?”.

Aos 10 anos, Mariza foi estudar no Colégio São José, que, na época, funcionava em regime de internato. Dessa forma, passou a conviver mais de perto com os ensinamentos da doutrina católica. “Tudo era pecado: conversar na fila, conversar na biblioteca, conversar durante a aula. Além disso, as freiras costumavam deixar espalhada pelo colégio uma placa com os dizeres: ‘Deus me vê’”, relata ela.

Apesar de ter sido educada nesse ambiente marcado pela forte religiosidade, Mariza nunca deixou de se sentir azucrinada por aquela dúvida primeira. Foi somente em 1992, quando estava prestes a concluir sua dissertação de mestrado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis – “Em Busca dos Contos Perdidos: O significado das funções femininas nos contos de Perrault” (Editora Unesp e Imprensa Oficial), que a pesquisadora conseguiu solucionar o problema que a “atormentava”.

“Pelas leituras que havia feito ao longo da juventude, eu já sabia que a ideologia religiosa é enfiada em nossas cabeças desde que somos crianças. Mesmo assim, por muito tempo tive medo de questionar o sagrado. Quando terminei minha pesquisa sobre as fadas, os temores deixaram de existir. Oras, se elas, que eram divindades adoradas pelos povos antigos, não passavam de invenções, porque os acontecimentos narrados na Bíblia não seriam também?”, explica.

“Salva pelas fadas” de seus medos em relação ao sagrado, Mariza define-se, atualmente, como agnóstica. “Para mim, o sobrenatural não existe. Lutei por dez anos contra esse sentimento. Hoje, considero-me livre dessa imposição”, garante.