09 de julho de 2026
Regional

Dois Córregos conquista a posse da estação

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

A cidade de Dois Córregos (73 quilômetros de Bauru) está em clima de festa. Depois de anos de luta, o município recebeu na última semana a posse precária, compromisso preliminar de transferência definitiva da estação ferroviária. O “pacote” inclui além do prédio da estação, a casa do chefe de trem, atualmente ocupada por posseiros, a casa dos banheiros e o armazém.

A documento foi assinado pelo prefeito Luiz Antonio Nais e a Superintendente de Patrimônio da União, regional de São Paulo, Evangelina de Almeida Pinho. Os imóveis pertenciam à antiga Companhia Paulista de Estrada de Ferro, depois Ferrovias Paulista S/A (Fepasa), Rede Ferroviária Federal (RFFSA) e União, mais recentemente.

O próximo passo do município é literalmente colocar as mãos na obra. “A estação está em estado precário, em péssimas condições. Vamos contar com a iniciativa privada para reconstruir o prédio e restaurar o que for possível”, comenta o diretor do departamento Cultura e Turismo, Witter Francisco Soffner.

Segundo ele, mesmo antes de possuir a posse, a administração municipal havia mantido contato com a iniciativa privada. “O projeto de restauração está orçado em R$ 1,5 milhão. Não podíamos mexer porque não tínhamos o documento em mãos.”

De acordo com ele, o projeto é grande e complexo. De imediato será feito uma reforma no salão onde funcionou a escola do Sesi. “Está em boas condições. Em breve vai funcionar a escola de música e o projeto Guri, que farão parte da primeira fase a ser implantada. O Projeto Guri funciona precariamente no Centro do Idoso.

O local vai abrigar ainda a escola municipal de música e os departamento de Educação, Cultura e Turismo. No futuro, vamos montar o museu ferroviário.”

Para Soffner, a posse foi o “start” para o início da obra. “Não tem prazo estabelecido para iniciar a obra e nem para terminar. Antes da posse não era possível pensar na execução da obra.”

A arquitetura será mantida, garante o diretor. “A planta original foi preservada. Existe uma pesquisa pronta para a restauração. Vamos restaurar a praça Humberto Alencar Castelo Branco. O bebedouro de cavalos está quase perfeito. Este local foi mostrado no filme Dois Córregos. As carroças paravam aqui para embarque de passageiros, que eram transportados para as fazendas de café.”

A depredação seguida de incêndio deixou o prédio da estação distante do original. As portas e janelas foram furtadas. O piso de madeira, idem. Somente as paredes, de tijolos inteiros, estão em pé. O trem de carga ainda trafega e futuramente ele irá fazer a alegria dos visitantes.

Um plano a longo prazo poderá consolidar um sonho, segundo o diretor. “Colocar uma Maria Fumaça para transportar turistas.”

Para Soffner, a revitalização da estação vai mudar o layout daquela região da cidade. “Além da restauração física vamos restaurar a história. Muitos moradores têm um elo com a ferrovia. A maioria deles tem ou teve alguém que trabalhou nela.”

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Valorização da área

A comerciante Cristina Fêlix Espírito está há 24 anos estabelecida em frente à estação ferroviária de Dois Córregos. Ela está otimista com a idéia da reconstrução da estação. “Vai mudar esse espaço. Acredito que vá valorizar.”

Na opinião dela, assim que o prédio e a praça estiverem repaginados, ela pretende mudar o layout do hotel. “O progresso precisa ser acompanhado.”

O comerciante Euclides de Úngaro tem um passado ligado à estação ferroviária de Dois Córregos e relembra com muita saudade dos tempos em que passou atendendo os passageiros que ali desembarcavam. “Em sua maioria estudantes que vinham de Torrinha, Brotas e Itirapina. Eles vinham porque aqui o ensino era melhor.”

Mas é o bar da estação que o atrai. “Se houver possibilidade de voltar a trabalhar na estação, eu volto. Durante muitos anos eu e minha família vivemos ali. Tinha um quarto onde a gente dormia. Meus três filhos nasceram nessa época.”

O movimento de passageiros, nessa época, de acordo com o comerciante, era grande. “Muitos passageiros vinham de São Paulo e desciam aqui para embarcar no ônibus que seguia para Jaú, Barra Bonita e Mineiros do Tietê.”

O bar da estação fechou quando acabou o trem de passageiro. “Foi o fim de uma era. A estação era linda, glamourosa. Eu acho que aqui deveria ser instalada uma escola ou uma Santa Casa.”

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Réplica da estação de Marselha

A estação de Dois Córregos, segundo os historiadores, é uma réplica da estação de Marselha na França, destruída na 2a Guerra Mundial. Construída em 1912, ela não faz parte só da história da cidade e da região, mas também do cinema brasileiro onde aparece em dois filmes: “Dois Córregos” e “Alma Corsária”.

O filme “Dois Córregos” foi rodado 90% no município, comenta o diretor do departamento Cultura e Turismo, Witter Francisco Soffner. “O ‘Alma Corsária’ filmou uma parte. O cartão de visitas é o filme ‘Dois Córregos’. A história tem início aqui na estação ferroviária. O ator Carlos Alberto Riccielli veio para a cidade para as filmagens. Fez o papel de perseguido pela repressão militar. “Na época, a ferrovia ainda estava em funcionamento. Hoje, só passa trem de carga.”

Soffner frisa que em 1986 a Fepasa restaurou a estação. “Ela foi reformada e restaurada por ser considerada uma das mais bonitas e representativas da antiga Companhia Paulista. Em 1992, o cineasta Carlos Reichenbach filmou cenas de Alma Corsária. Em 1998, o cineasta voltou à cidade para imortalizar a vida que havia na estação. Na época, quase totalmente deteriorada e em completo abandono. A produção do filme conseguiu restaurar partes da pintura.”

Pouco tempo depois, a réplica de Marselha foi tomada pelo fogo que destruiu boa parte da estrutura. “Foram destruídas três salas, toda a cobertura, além da entrada principal do prédio. Somente o relógio inglês foi salvo por uma Organização Não Governamental (ONG). “A máquina está guardada em perfeita condições, vai funcionar novamente. O relógio inglês vai ser recolocado no local exato. Foi a ONG Terra Viva que guardou para o município.”

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Bocaina comprou a estação ferroviária

A estação e armazéns da Companhia Estrada de Ferro Douradense e depois Paulista de Bocaina foram adquiridos pela prefeitura de Bocaina (69 quilômetros de Bauru) na gestão do prefeito Alfredo Sormani Júnior, nos anos 80. De acordo com o livro sobre o município, de autoria de Walmir Furlanetto a administração teria pago na época Cr$ 163 milhões.

Restaurada, ela abriga a Casa do Artesão e o Acessa São Paulo, desde o início deste ano.

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Concessão do uso da estação de Lençóis vence no ano que vem

Em 2005, a prefeitura de Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru) conseguiu junto ao governo federal, a concessão de uso da estação da Estrada de Ferro Sorocaba. No próximo ano, mais precisamente em abril, vence o prazo de cinco anos e a administração municipal teria, teoricamente, que desocupar o prédio.

Para que isso não ocorra, o diretor jurídico da prefeitura, Leandro Orsi e a diretora administrativa, Sílvia Gasparoto, lutam, desde o ano passado, para prorrogar por mais 20 anos a concessão. Caso isso não seja possível, a prefeitura pretende adquirir o imóvel, segundo a assessoria de imprensa do órgão.

Atualmente, a estação é ocupada pela Escola Senai, que mantém um posto de atendimento, uma sala de computadores onde ministram aulas de informática e pelo grupo da cidadania contra a fome e miséria.

O prédio atual, segundo historiadores, foi entregue em 1938 e passou por reforma após a concessão de posse. Na fachada original, um vitral mostrava o trem saindo de um túnel.