09 de julho de 2026
Nacional

Conversando com o Bispo: A leitura orante da Bíblia


| Tempo de leitura: 4 min

Ou, em latim, a “Lectio Divina” mais do que um método é uma maneira simples, individual ou grupal de se ler e meditar a Palavra Divina e de se dispor à escuta de Deus e à acolhida de sua graça. Somente isso. Bastando ao sujeito leitor da Bíblia a humilde confiança e o sincero desejo de comunicar-se com o Senhor, a Palavra Sagrada por ele lida e meditada, que é luz e força, pode de fato iluminar os seus passos e transformar a sua vida. Diz-se, por isso, que a “Lectio Divina” é como um itinerário espiritual que leva a pessoa a um venturoso encontro e diálogo com Deus por meio de sua Palavra. Desse encontro, o leitor não sai o mesmo, mas renovado e fortalecido na fé, esperança e caridade.

Essa experiência peculiar de ler a Sagrada Escritura remonta ao povo do antigo Israel que a lia para “alimentar a fé e a fidelidade à aliança” (cf. Neemias 8, 1-12). Os cristãos, depois, não abandonaram essa prática, mas a assumiram e a levaram adiante, desenvolvendo-a até a fórmula clássica como a conhecemos hoje. Naturalmente uma experiência orante da Bíblia que teve seus momentos de altos e baixos, segundo as vicissitudes da história.

Pois bem, a “Leitura Orante”, na sua formulação clássica que se desenvolveu desde as primitivas práticas cristãs de meditação bíblica e os exercícios espirituais dos monges do deserto e que chegou até nós, vem proposta como um itinerário em quatro passos ou uma escada de quatro degraus, indicando um caminhar para frente e para o alto, ou seja, para o céu e para Deus.

Os quatro passos ou degraus da “Lectio”

1º passo: LER – Deve-se sempre começar invocando o Espírito Santo, para que ajude e ensine a rezar e a ouvir a voz do Deus Vivo que, com sua Palavra, quer falar. Depois, inicia-se fazendo a leitura, uma simples leitura do texto e uma pausa para bem compreendê-lo. O empenho por entender o que o texto em si mesmo está dizendo supõe inclusive situá-lo no tempo, no espaço e no seu contexto. Para isso, se for possível, será muito útil servir-se de algum bom comentário bíblico. Prestar atenção às palavras, às ideias, ao conteúdo, ao sentido... E silenciar-se para ouvir o que Deus tem a dizer.

2º passo: MEDITAR – É uma ação a se fazer mais com o coração do que com a cabeça. É o ruminar a Palavra depois de lida e entendida. Alguém até já usou a comparação com o gado que, enquanto descansa, rumina e mastiga, trazendo a relva de volta do estômago para reprocessá-la a fim de que nenhum nutriente se perca e tudo seja bem aproveitado. Assim deve ser o meditar, um processo de interiorização e interpretação da mensagem lida agora, buscando atualizá-la no aqui e agora da caminhada e aplicá-la à vida no concreto das vivências, sentimentos, alegrias e tristezas. Tentar perceber o que o texto está a dizer. E suplicar, como os santos: “fala, Senhor, que o teu servo escuta”.

3º passo: ORAR – A leitura e a meditação levam à oração. Como suspiro e sussurro da alma a oração é o desejo de falar com Deus, de lhe abrir o coração, de louvar, de agradecer, de suplicar perdão pelas traições e bênçãos de bem para si e para os outros. O texto lido e aplicado à vida inspira o orar e o que dizer a Deus. Uma oração ligada à vida. É a resposta dos santos: “escuta, Senhor, que o teu servo deseja falar”.

4º passo: CONTEMPLAR – Não é apenas vivenciar algum êxtase místico. Embora ele possa acontecer, consiste em desenvolver e aprimorar a capacidade de lançar um novo olhar sobre a vida, sobre Deus e sobre os outros. E, como conclusão da leitura orante, ser capaz de assumir compromissos de fidelidade na fé, de tornar-se discípulo e missionário, e de servir à vida.

Dependendo menos da vontade e esforço e mais da graça e ação do Espírito, a “Leitura Orante” conduz ao encontro com Deus. Empenhe-se com afinco, prezado leitor, nesse exercício de ler, meditar, orar e contemplar a Sagrada Escritura, confiando, contudo, que o Espírito Santo vem ao encontro da nossa fraqueza e “intercede por nós com gemidos inefáveis (Rm 8, 26).

Dom Caetano Ferrari Bispo Diocesano de Bauru