10 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Zarcillo Barbosa, alma acorrentada em Bauru


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Às vezes, Deus nos proporciona encontros inesperados para que compartilhemos nossas vidas com pessoas que se tornam especiais, como foi o caso do experiente jornalista Zarcillo Barbosa. Quis a providência que o novo Cidadão Bauruense, vindo da vizinha Marília, aqui aportasse, um dia, para se tornar um dos mais brilhantes jornalistas de Bauru e região. Com Zarcillo, sempre alimentei uma amizade de muito respeito e admiração. Conheci-o na década de 60, numa sala de aula no Senac, como aluno de um curso preparatório para exames vestibulares da ITE, onde trabalhei como diretor e professor de português. Tal encontro é confirmado num artigo no JC, intitulado “A chuva”, quando afirma ter logrado êxito no fato de aprender análise sintática com este humilde repetidor de aldeia. Os louros da vitória se devem à inteligência do aluno. Numa outra oportunidade, encontrei-o na redação do Diário de Bauru, na Rodrigues Alves. Nessa ocasião, confessei-lhe a minha intenção de escrever uma coluna onde comentaria dúvidas, impropriedades, curiosidades lingüísticas e até literárias do nosso vernáculo, coletadas nos meus longos anos de magistério. De pronto, Zarcillo nos apoiou e num estalo batizou a coluna de “A Última Flor do Lácio”. Esse título, o arguto e inteligente amigo garimpou no conhecido soneto “Língua Portuguesa”, de Olavo Bilac, em que o poeta compara a língua portuguesa com a flor, o ouro, com a tuba e a lira cujas palavras transferem à língua, metaforicamente, as qualidades de beleza (flor), riqueza (ouro), eloqüência (tuba) e suavidade (lira).

Zarcillo, embora tardiamente, devia-lhe este preito de gratidão, a qual lhe presto nesta ocasião. Há tempo, após o fechamento do Diário de Bauru, esperávamos uma oportunidade para resgatar a verdadeira razão do nome da coluna, transferida posteriormente para o Jornal da Cidade. Outros encontros tivemos sem muita relevância. Nossos contatos foram esporádicos, sem enfraquecimento da nossa amizade. Mas sua presença tornou-se mais forte e constante, quando, aos domingos, na página 2 do JC, na coluna “Opinião”, você adentra o meu lar e de muitos leitores de Bauru e da região expondo o seu dom de avaliar as coisas clara, distinta, adequada e sensatamente. Em seus textos cumpre ter critério, bom senso, sabedoria. Uma apreciação correta das pessoas e acontecimentos, fruto de uma análise cautelosa, indica inteligência, ou seja, escreve o que está ao derredor de cada um, sagacidade para separar o joio do trigo, perspicácia para não confundir gato com lebre.

Amigo Zarcillo, você, quando escreve, tem o seu estilo; mas apenas alguns têm o dom do estilo desejável. O homem que escreve, luta com as palavras, de manhã à tarde, como dizia Carlos Drummond de Andrade. Você é íntimo delas, adquiriu um inteligente e competente domínio sobre elas. Faz as palavras se darem bem com as idéias. Você as leva exprimirem as idéias da melhor maneira, da maneira mais bonita e clara possível. Como é bom ler, quando o escritor sabe escrever. Numa cidade como Bauru e região de jornalistas absolutamente brilhantes, você, Zarcillo, é titular do primeiro time. É craque da palavra, mesmo quando carregada de ironia, de crítica política, de sérias análises das reformas sociais necessárias para garantir à população carente condições dignas de vida. Caro amigo Zarcillo Barbosa, pelos seus 45 anos de Bauru, pelo muito que fez, por tudo que escreveu, pelo reconhecimento dos alunos ao professor da Unesp, pelo amor da esposa e filhas aqui nascidas e pelos amigos conquistados, sua alma, hoje, acorrentada em Bauru, lhe dá o direito de ser o mais novo Cidadão Bauruense. Parabéns!

Prof. Gino Crês