Por volta da década de 50, existia um garoto criativo, que passava o seu tempo escrevendo poesias e desenhando. Apesar da boa qualidade de suas pequenas obras, o mesmo garoto vivia sendo menosprezado por seus professores, que diziam que tudo o que ele produzia não passava de perda de tempo. Algum tempo depois, esse mesmo garoto descobriu o rock’n’roll e começou aprender a tocar guitarra. Mas sua tia, que o criava desde pequeno, dizia que ele nunca iria ganhar dinheiro com aquilo. No entanto, apesar de todas as críticas negativas, o jovem não desanimou e, de passo em passo, acabou formando uma banda com os amigos. Quando, finalmente, a banda se tornou profissional e conseguiu um empresário, este resolveu marcar um teste em uma gravadora chamada “Decca”. Mas a banda, infelizmente, acabou sendo reprovada. O responsável pela reprova justificou dizendo que “todas as bandas com guitarras” estavam com seus dias contados. O infeliz, meus amigos, havia acabado de reprovar John Lennon e sua banda, os Beatles! Não é preciso nem dizer que, nos anos seguintes, a gravadora se tornou motivo de chacota, em todo o meio musical.
Não apenas no mundo da música, mas em qualquer arte que se preze, é muito difícil se estabelecer como um bom artista desde o começo da carreira, mesmo sendo talentoso. Se você quiser mostrar algo diferente e inovador, a coisa fica mais complicada ainda. Apenas depois da consagração como artista é que podemos mostrar algo que seja diferente do padrão estabelecido, algo que as pessoas, com certeza, dirão: “Puxa, isso é genial!”. Se o caro leitor já estiver a fim de interromper a leitura, achando que esse texto abordará apenas o óbvio (o que foi feito até agora), você se surpreenderá ao ler os próximos parágrafos.
Há muito tempo atrás, um poeta escreveu uma das mais célebres poesias, que dizia: “No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/ no meio do caminho tinha uma pedra”. Apesar da estranheza inicial que o poema causou às pessoas, anos mais tarde ele foi consagrado como uma das mais importantes obras da literatura brasileira. No entanto, não podemos nos esquecer que foi Carlos Drummond de Andrade (gênio que dispensa apresentações) quem o escreveu. Vamos, agora, esquecer as barreiras de espaço e tempo, já que o significado do poema citado pode ser encaixado em qualquer época. Suponhamos, então, que esse poema não existisse e que um de nós (meros “mortais”) o tivesse criado, em um momento de inspiração, numa espécie de realidade paralela. Enquanto o poema escrito por Drummond, em nosso mundo real, foi interpretado como um relato das adversidades que passamos durante a vida (sendo a pedra o símbolo de obstáculo e do cansaço existencial), o mesmo poema, desta vez escrito por qualquer um de nós na realidade paralela, possivelmente seria interpretado como uma grande besteira sem sentido. Mas os dois poemas não são os mesmos? Qual o motivo, então, dessa diferença de opiniões, a respeito deles?
Podemos explicar o fato da seguinte maneira: boa parte das pessoas apresentam uma tendência em “endeusar os seus ídolos”, a ponto de considerar tudo o que foi feito por eles como a mais perfeita representação de suas artes. No entanto, se algum amigo ou qualquer pessoa próxima acabar criando algo inovador, a obra apresentada meio que perde esse tipo de “aura mágica” (tão comum no trabalho de uma pessoa mais influente ou famosa). Um outro exemplo: quando John Lennon gravou “Strawberry Fields Forever” com os Beatles, por volta de 1967, utilizou uma letra totalmente surreal e um vocal esquisitíssimo. Mesmo com a desconfiança do público, num primeiro momento, a música foi considerada, algum tempo depois, bastante inovadora para a sua época. Mas John Lennon (juntamente com os Beatles) só pôde se arriscar a lançar uma música tão fora do padrão convencional pelo fato de já ser uma figura famosa no mundo da música. Agora, se fosse o desconhecido John Lennon, dos anos 50, quem a tivesse gravado, com certeza “Strawberry Fields Forever” seria considerada a canção mais horrível de toda a história do rock’n’roll. A razão disso é bem simples de entender, pois gera dois tipos de opiniões distintas. “O John Lennon dos Beatles é um gênio e, apesar da música ser um pouco estranha, com certeza ele teve a noção exata de tudo o que fez referente a ela, já que é um músico experiente e nunca poderia gravar algo que não fizesse sucesso”, seria a primeira opinião, referente ao John Lennon famoso. “O John Lennon do Quarrymen? Aquele garoto que toma ônibus comigo todo dia? A sua banda é horrível, não é de se estranhar que ele gravasse uma coisa tão ruim como ‘Strawberry Fields Forever’”, poderia ser a segunda opinião, referente ao desconhecido John Lennon dos anos 50.
Foi a partir de todas essas reflexões, que finalmente comecei a aceitar melhor as duras críticas que eu (como qualquer outra pessoa) estou sujeito a receber, referentes ao meu trabalho como designer, escritor, compositor e colecionador. Além disso, passei a ser mais tolerante com certas pessoas que me criticam porque, intuitivamente, consigo perceber que as suas críticas são feitas sem o conhecimento prévio do conceito ou contexto abordado por mim, em meus trabalhos. Para terminar, gostaria de colocar aqui uma poesia que eu mesmo escrevi, a respeito do assunto abordado nesse texto: “Não se esqueça que o seu ídolo já teve a sua idade/ E da sua arte diziam ‘Que bobagem’/ É bom tomar cuidado pois quem menosprezou/ É aquele no futuro que na vida se ferrou”. Não gostou da poesia, caro leitor? Achou horrível? Ah, se eu fosse o Drummond...
Alexandre Braz Gardiolo