Se todos que não sabem perguntassem antes, fariam menos asneiras e gastariam menos dinheiro. Por esta característica tipicamente humana é que proliferam os espertinhos e os aproveitadores. O mercado de tuning, ou seja, a preparação de veículos para qualquer outra finalidade que não o simples transporte ou o seu deslocamento, se aproveita desta característica e vende coisas que “estão na moda” ou que pretendem oferecer alguma melhoria estética ou aerodinâmica que absolutamente não servem para nada. E muitas vezes são de péssimo gosto.
Começando pela aerodinâmica, que é a ciência que estuda o mecanismo de passagem de um fluxo de ar por superfícies em movimento gerando arrasto, pressão ou sustentação. Isto é muito sério e complicado e as fábricas desenvolvem seus estudos em túneis de vento acompanhados por engenheiros especialistas e computadores, medindo as pressões em cada ponto da superfície e determinando com precisão seu perfil. É um estudo caríssimo e só se justifica em veículos de alto preço e desempenho, como os esportivos de luxo.
Só que então surge do nada alguém que viu em uma revista importada um aerofólio bonito em um Porsche e fabrica em fibra de vidro algo parecido e “adequado” para colocar em um Escort, Voyage ou Passat de rua. Além de não ter função aerodinâmica nenhuma, às vezes até atrapalhando pela geração de vórtices na traseira, ainda podem se soltar em alta velocidade e causar um acidente com os outros. Pura estética, sem função prática alguma. Principalmente porque poucos sabem que os chamados apêndices aerodinâmicos só têm ação acima de uma determinada velocidade, e esta pode ser de 150 km/h, por exemplo, velocidade quase nunca atingida na prática pela maioria dos carros de rua. Os spoilers dianteiros são outro bom exemplo disso, pois além de não terem real função aerodinâmica, ainda diminuem o ângulo de ataque frontal, rebaixando a frente da carroceria e fazendo com que batam em qualquer saliência ou obstáculo do caminho, como guias, sarjetas, valetas, lombadas e saídas de garagem.
Ainda pior é o rebaixamento da suspensão. Como carro de competição é rebaixado para diminuir a passagem de ar por baixo do assoalho e abaixar o centro de gravidade, tem gente que acredita que isto se aplica ao seu Chevette. Vai lá e corta as molas... Pronto, está feito o estrago. A suspensão perde curso, fica dura, altera totalmente a geometria da direção. É comum vermos na rua carros mexidos andando mais devagar que você para desviar de lombadas...
Com as picapes acontece o mesmo. Vejamos o quebra-mato frontal, cuja finalidade seria de proteger os faróis e a grade contra galhos e arbustos em uma incursão fora de estrada. Na prática, o proprietário só usa o veículo na cidade ou estrada, portanto seu objetivo é outro: dar um ar mais agressivo à sua máquina. O fabricante do equipamento sabe disso e faz um quebra-mato leve, cromado e bonito, mas fraco e muitas vezes mal fixado por apenas alguns parafusos. Confira como é fixado o quebra-mato de um jipe e veja a diferença. Se usar de verdade, é mais fácil o arbusto tirar o quebra-mato da picape do que o contrário. E, pior ainda, em caso de colisão ou de atropelamento, podem aumentar a gravidade do acidente.
Ainda nas picapes, existe outro atentado chamado “santantônio” colocado na caçamba. Sua finalidade é válida e honesta, que seria a de proteger a cabine em caso de capotagem, para não esmagar os ocupantes. Esta estrutura tubular é muito usada em carros de rali e realmente funciona, pois é fixada à estrutura do veículo formando uma verdadeira gaiola de proteção. Já nas picapes de rua, é um trambolho cromado que só enfeita (?) a caçamba, que até salvaria alguém se fosse bem fixada. Mas o que acontece na realidade é que o santantônio é preso por alguns parafusos e chapinhas dobradas para permitir a colocação de uma capota marítima, o que tira qualquer funcionalidade da estrutura. Vá ver e confira!
A própria película solar aplicada nos vidros, conhecida como insulfilm, pode ser um fator inseguro. É divulgada sua vantagem em diminuir a insolação interna, mantendo as temperaturas mais agradáveis no interior do veículo. Se aplicadas dentro da lei, realmente funcionam, mas muitos a colocam puramente por estética ou moda (afinal, se todo mundo tem, por que justo eu não vou instalar em meu carro?) e alguns as colocam escuro demais. Parece o caveirão da PM. Tente manobrar à noite dentro da garagem de um prédio e depois me conte...
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.