Falaremos hoje sobre o terceiro e último motivo pelo qual contestamos as versões apresentadas no livro “No Princípio Era o Poder”, da professora Mariza Bianconcini Teixeira Mendes. A visão moderna de outra cultura e época. Olhar para o mundo antigo e querer fazer uma análise textual ou semiótica são no mínimo preocupantes, se dissociar a língua, a cultura e os gêneros literários daqueles povos. Não é à toa que se chega à conclusão da autora: “... Abraão utiliza Sara... sua esposa, para acumular riquezas”.
As relações que a Bíblia apresenta eram comuns de uma sociedade nômade e semi-nômade. Os patriarcas viviam em tendas (Gênesis 12:8; 13:3,5,12,18; 18:1ss; 25:27; 26:25; 31:25,33). Seu ofício principal era a criação de gado e, sobretudo, a criação de gado miúdo (ovelhas e cabras). Há menção também de jumentos e camelos (Gênesis 12:16; 15:9; 20:14). Na criação de gado empregavam pastores (Gênesis 13:7,8; 26:20). Eles também exerciam a agricultura (Gênesis 26:12; 27:28,37) e a viticultura (Gênesis 27:28,37). Alimentavam-se dos produtos da pecuária e da agricultura: pão, leite e carne (Gênesis 18:6-8). Ocasionalmente também saíam para a caça (Gênesis 25:27; 27:3ss).
Jurídica e socialmente na terra cultivada eles eram forasteiros sob tutela (Gênesis 21:23; 23:4). Estavam em condições de adquirir bens imóveis (Gênesis 23; 33:19). O relacionamento com as populações fixas, urbanas e rurais, era de relativa autonomia e distância. Firmavam alianças com elas (Gênesis 21:22-31; 26:16-33; 31:44-54), sob certas circunstâncias também se colocavam a serviço dos agricultores sedentários da terra cultivada (Gênesis 29:15ss) e em certos casos se relacionavam com eles através do comércio e casamentos (Gênesis 34:8,21). No caso do Faraó e de Abimeleque, fica evidente o temor de Abraão e sua mentira para proteger-se. O fato destes soberanos darem presentes mostravam que eles queriam dar uma oferta para que o deus de Abraão não os punisse.
E finalmente. Fazer uma análise da Bíblia, especificamente do Antigo Testamento, para fazer uma crítica contumaz, revela a pobreza de espírito daqueles que não reconhecem a grandeza de Deus. Na reportagem, só vi absurdos históricos e conceituais.
Mas o pior é dizer que a linguagem bíblica visava atingir um projeto de dominação, ou isotopias do poder. Isto é, a Bíblia em favor dos reis, generais e sacerdotes. Isso é ridículo. Por quê? Porque inúmeras vezes Deus condenou os líderes da nação, chamando-os de iníquos, imorais, guias cegos, atribuindo a eles a razão principal da destruição da nação (Deuteronômio 27:19; Neemias 5:7; Isaías 3:14; 10:1; 28:14; Ezequiel 22:27; 28:2; 45:9; Oséias 5:10; Miquéias 3:1; 7:3). Há inúmeras palavras contra a corrupção, o suborno e a mentira dos líderes (Êxodo 23:8; Provérbios 17:23; Isaías 1:23; 5:23; 33:15; Amós 5:12). E outro detalhe: o Antigo Testamento só teve sua formação final após o exílio de Babilônia, sendo impossível que Salomão, por exemplo, usasse o Antigo Testamento como instrumento insólito de opressão do povo.
Todas estas considerações me levam a pensar que a doutora Mariza perdeu seu tempo. Usar o Antigo Testamento para provar através da semiótica que a linguagem religiosa era uma forma de manipulação de vontades humanas, para promover o projeto hebreu de dominação, é no mínimo uma falácia. Que até hoje há inúmeras pessoas e grupos - até governos como o de George W. Bush - que usam a Bíblia para benefício próprio é evidente. Faz parte do ser humano usar aquilo que é bom, deturpando-o de seu real objetivo para atender intenções escusas. Basta olhar para Brasília e ver como nossos políticos usam a verba e as leis para benefício próprio.
Fica, portanto, a minha orientação a todos. Não leiam a Bíblia com moderação.
Leiam a Bíblia com atenção. A Bíblia não é a droga, o ópio do povo. A Bíblia é a Palavra de Deus para o homem. O erro não está na Bíblia, mas naqueles que a usam para enganar as pessoas desavisadas.
O autor, Gilson Souto Maior Junior, é pastor sênior da Igreja Batista do Estoril e professor de Antigo Testamento da Faculdade Teológica Batista de Bauru - Fateo