Tegucigalpa - Agentes da polícia e das Forças Armadas de Honduras retiraram ontem 57 pessoas que estavam no edifício do Instituto Nacional de Reforma Agrária (Inra) há três meses, desde que o presidente Manuel Zelaya foi deposto em golpe. A medida foi justificada pelo governo interino como parte do estado de exceção decretado no domingo e que restringe as liberdades civis no país.
O Inra era utilizado por centenas de trabalhadores agrários como residência temporária durante os protestos de manifestantes pró-Zelaya na capital.
“Esta ação faz parte do que é o decreto”, disse aos jornalistas Orlin Cerrato, porta-voz da Polícia Nacional. Cerrato afirmou ainda que a polícia investiga se há outros edifícios sendo ocupados por apoiadores de Zelaya, que está refugiado na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa desde 21 de setembro, quando voltou clandestinamente ao país.
O decreto limita por 45 dias as liberdades de locomoção, de reunião e de expressão do pensamento e autoriza as detenções sem ordem judicial prévia. Ele estabelece ainda a possibilidade de retirar pessoas que ocuparem instituições públicas por causa da crise política em Honduras.
Cerrato disse ainda que há 55 pessoas detidas, incluindo seis mulheres, cujos depoimentos serão ouvidos para aferir sua responsabilidade.
Papel do Brasil
Uma reportagem publicada ontem na edição on-line da revista americana “Time” diz que, ao mediar a crise hondurenha, o Brasil se tornou “o primeiro contrapeso real” à influência americana no hemisfério ocidental.
Considerando que o Brasil foi “trazido” para o coração do imbróglio pelos vizinhos, mais especificamente pela Venezuela do presidente Hugo Chávez, a revista diz que “Brasília se vê no tipo de centro das atenções diplomático do qual no passado procurou se afastar”.
Entretanto, diz a “Time”, o país “não deveria se surpreender” com o fato de ser chamado a assumir tal responsabilidade.
Para a publicação americana, “nos últimos anos, a potência sul-americana tem sido reconhecida como o primeiro contrapeso real aos EUA no hemisfério ocidental - e isto significa, pelo menos para outros países nas Américas, assumir um papel maior e mais pró-ativo em ajudar a resolver distúrbios políticos do Novo Mundo, como Honduras”.
Diplomacia ativa
Citando a participação brasileira em crises regionais, como os conflitos diplomáticos envolvendo Colômbia e Venezuela, e a liderança das tropas do país no Haiti, a revista nota que a diplomacia brasileira é “dificilmente ociosa” na América Latina. “E Lula, um dos mais populares chefes de Estado do mundo, se tornou talvez o mais efetivo intermediário entre Washington e a ressurgente esquerda antiamericana latino-americana”.