Esta história se passa numa pequena cidade às margens de um pequeno rio até que piscoso, lá para as bandas dos fundos do Estado do Paraná, donde os moradores e grande parte pescadores e aficionados desse esporte se deliciam nos fins de semana. Um dia, nessa cidade, eis que surge, não se sabendo da onde, um menino, contador de coisas, falando desconexadamente, aparentando uma certa excepcionalidade, só informando que sua mãe o havia deixado na cidade para arranjar o que fazer.
E assim o menino foi se infiltrando nos meios dos moradores e conseguindo alguma simpatia. Para dizer a verdade nem seu nome sabia dizer. Mas foi ficando e o povo aceitando. Freqüentava aqui e ali sem nenhuma cerimônia. Cidade pequena, rudimentarmente vivendo da roça, pesca, artesanato, cerâmica, etc. Tinha até alguns bons e famosos pescadores. Um deles era o doutor For Ever, não nome verdadeiro, mais pela sabedoria, conhecimento e formação cultural e política na cidade.
O menino, já muito conhecido, como nem seu nome sabia informar (não tinha documento), recebe um apelido do Doutor For Ever: Dê. Chama-o e diz: “Seu nome daqui pra frente será ‘Dê’ e sobrenome “Traque”. Completando: Dê de Détraqué. E assim ficou.
O tempo passou e num belo dia de fim de semana Doutor Ever forma um grupo para pescaria. O grupo, como vocês sabem nunca é homogêneo, sempre será heterogêneo, pois sua substituição é de pessoas de raça, cor, religião, cultura. Doutor Ever tinha um amigo que nivelava a ele e com quem sempre pescava.
Levaram o Dê para o rio, formando um trio Doutor Ever, seu amigo e Dê. Dê era bastante serviçal. Ficava atento aos dois pescadores. Já em plena pescaria, o Doutor Ever (embora conversando sobre coisa diferente da pesca), fisga um peixe exatamente quando completava uma frase da conversa e puxando a vara diz: “- Esse é o mote!”
Dê, com os olhos arregalados e assustado pergunta: “- Mote?” E o Doutor Ever completa: “- É uma legenda de brasão, conceito expresso num dístico, tema epígrafe, motejo...” (Dê imaginando tratar-se de peixe, suspira e completa, “PQP, como esse pega esses tipos de peixes? E como conhece peixe?”). Terminada a pescaria, Dê chegando a cidade começou a contar para a cidade inteira os tipos de peixes fisgados pelo Doutor Ever. E assim foi.
Consta também que, entre outras coisas, é da lavra do Dê a história segundo a qual um pescador chegou em casa de madrugada e colocou na geladeira uma lata com peixe vivo (tipo pintado de 2 quilos) e de manhã sua mulher ao abrir a geladeira notou a falta de um frango e um bolo que eram para o aniversário da filha e gritou: “- Béeem! Cadê o frango e o bolo?”. “– Eu não sei de nada!”.
E foi até a cozinha e disse: “- Mulher você não está vendo que foi o peixe que comeu. Olha está inchado e se contorcendo”. Os anos se passaram. Dê ainda conta suas histórias. Vive disso. Ganha uma coisinha aqui e ali. Chegou até ganhar medalhas e troféus pelas suas histórias de pescador.
Vocabulário: Detraquê é a pessoa que cria e conta histórias mirabolantes, fantasiosas, misteriosas, místicas e que, de tanto repeti-las, tornam-se para ele verdadeiras.
Elpídio Cristino de Lima é pescador e contador de histórias.