08 de julho de 2026
Articulistas

Crescimento de quem?

Iolanda Toshie Ide
| Tempo de leitura: 3 min

Quando se instituiu o salário mínimo, pensou-se na garantia de uma vida minimamente digna. A despeito de uma recente valorização e de uma política de médio prazo, nem é preciso dizer que o salário mínimo atual permanece muito distante de quando foi instituído. O tsunami causado pelos especuladores de sempre teve como resultado não uma guinada em direção à sensatez, mas um aprofundamento do cinismo.

Quando se trata de garantir os lucros de poucos, a experiência vicária funciona. Foram rapidíssimos e governos -inclusive o nosso - apressaram-se em socorrê-los, com os impostos que pagamos. Em vez de garantir os empregos, como alegaram, demitiram e compraram títulos da dívida pública. Preferiram premiar os que assaltam os direitos dos que trabalham: os que a duras penas poupam para poder construir sua moradia, ou prevenir-se para alguma doença ou outro imprevisto e, o pior, os que só conseguem sobreviver.

O preço dos alimentos disparam cada vez mais porque os governos permitem que os especuladores comprem as produções (com dinheiro alheio, muitas vezes públicos), joguem nas bolsas para encareçam, quando não deixam apodrecer para que a oferta seja menor que a procura. Daí porque a despeito dos alimentos produzidos serem suficientes para alimentar com folga todos os habitantes desse maltratado planeta, ainda há um bilhão de famintos.

A soberania alimentar diz respeito não só à existência de alimentos para todos, mas ao acesso de todos respeitando as preferências culturais e as necessidades nutricionais. Sempre se alega alguma causa, inclusive sazonal, para o aumento dos preços. A despeito de, na nossa região, quase não ter havido estiagem nesse inverno, o preço tornou do leite proibitivo a grande parcela da população.

A queda na exportação de cereais seria motivo para a queda dos preços internos, mas assistimos, sem defesa, a um galopar nos preços. A queda no consumo de combustíveis também não significou tarifas de transporte menores, pelo contrário. Remédios, taxas de juros, disponibilidade de crédito, tarifas de eletricidade e água, continuaram assaltando o bolso da população. Em resumo, o custo de vida continuou não só alto, mas elevando-se ainda mais.

Os salários, ora os salários. Pretendia-se que não houvesse campanha salarial em nome da crise. Pois bem, para os banqueiros e montadoras sobraram bilhões, mas vários Estados, inclusive os mais ricos, alegaram não poder pagar o piso salarial nacional ao professorado. As escolas continuaram sem laboratórios, bibliotecas, funcionários, material didático... Faltaram remédios, exames médicos, leitos hospitalares, transporte por ambulância... Faltou tudo. Só sobrou a abundância dos bilhões para premiar quem causou o desemprego, o arrocho salarial, o encolhimento dos serviços públicos.

Agora, alega-se que tudo está superado e que o crescimento foi retomado. É de se indagar sobre que crescimento, para quem e a que preço. A rotatividade dos trabalhadores acelerou-se garantindo um arrocho salarial ainda maior. O tempo para a retomada de um posto de trabalho após o desemprego alongou-se ainda mais. O medo do desemprego ensejou a aceleração da exploração da força de trabalho com metas cada vez mais desumanas e jornadas mais longas. Assistimos, pois, o crescimento dos lucros da minoria de sempre, o assalto aos direitos sociais, a depredação da natureza.

A experiência da crise de 1929 e das recentes turbulências das últimas décadas, serviu para que os especuladores de sempre produzissem o desemprego, assaltassem com maior velocidade os cofres públicos em nome da defesa dos empregos. Além disso, provaram que “unidos jamais serão vencidos”. Os rivais de ontem uniram-se, apadrinhados pelos governos, formaram conglomerados ainda maiores, internacionais, e fortaleceram o lobby contra os direitos dos consumidores.

A grande mídia, sustentada que é pelo grande capital, aplaude e alardeia a superação da recessão que até então negaram. E o povo que se dane anestesiando-se com programas televisivos bestializantes, com torneios esportivos negociados nos bastidores, com a imposição de um tipo de “cultura” que garante mais lucros. É mais feliz quem não enxerga e nem ouve.

A autora, Iolanda Toshie Ide, é presidente do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres de Lins, professora aposentada da Unesp e colaboradora de Opinião