11 de julho de 2026
Articulistas

Estação ferroviária preservada renasce com um novo destino

Ricardo Bagnato
| Tempo de leitura: 3 min

O destino final da “mais bonita estação do Interior paulista” (palavras de Ignácio de Loyola Brandão) foi incerto nos últimos anos. Muita coisa foi discutida e a administração municipal passada por pouco não viabilizou a desapropriação e conseqüente compra do imóvel. Seu intento veio por água abaixo, devido a um investidor possuir prioridade na aquisição. Um grupo norte-americano sondou, um banco realizou estudos, mas ambos afastaram-se da concretização final. Alguns alegaram que os empecilhos e impedimentos vinham dos órgãos de defesa do patrimônio histórico. Esses sempre se mostraram intransigentes em algumas questões (como devem ser), mas nunca contrários a qualquer tipo de negociação. Decisões desses órgãos só podem ser tomadas diante de projetos concretos e não em cima de hipóteses. Os ferroviários, atuais donos da famosa edificação, já viram de tudo e estavam desiludidos. Assim, os anos se passaram sem quase nenhum avanço.

 Eis que surge uma luz no fim do túnel e um comprador com reais condições de compreensão de sua importância histórica, a Prefeitura de Bauru. O prefeito Rodrigo Agostinho, de forma corajosa e arrojada, assume o interesse e obtém o aval no mesmo sentido, da Câmara dos Vereadores, interessada em um novo prédio para abrigar o Legislativo. Logo a seguir a Associação dos Engenheiros de Bauru (Assenag) comunica que todo o projeto de adequação do imóvel para a nova ocupação pode ser feito por eles, de forma gratuita, numa demonstração de alinhamento com os rumos da cidade. Todos daqui, profundos conhecedores de nossa realidade e história. Melhor impossível.

 Agora, falta pouco e ao mesmo tempo, muito. O pouco é a confirmação e a concretização da hipótese apresentada, a mais viável e única palpável. O muito é algo que todos os envolvidos com a questão precisam ter em mente. O prédio é histórico e tombado pelo Codepac e pelo Condephat. A cidade continua o admirando, ainda que esteja deteriorado pelo tempo. Para que volte a funcionar a contento, não se fazem necessárias transformações estéticas profundas que alterem sua arquitetura original. A grandiosidade e concepção de suas instalações, contextualizadas por necessárias intervenções visando a melhoria da acessibilidade, certamente propiciarão sua múltipla ocupação, com todo o conforto e praticidade. A linha de pensamento deve ser a de recuperação e preservação de uma edificação singular. Isso sendo consenso, a cidade sairá ganhando, pois servirá de exemplo para outras tantas, demonstrando respeito por sua historicidade e passado glorioso.

 Bauru cresceu e se desenvolveu devido ao famoso entroncamento férreo. Hoje, a realidade é outra, pois a privatização sucateou boa parte da malha ferroviária nacional, substituindo, a partir dos anos 50, o modal ferroviário pelo modal rodoviário. Certo ou errado, essa é outra discussão. E mesmo que a ferrovia volte a funcionar, como demonstra um anseio nacional, as suas edificações não mais seriam ocupadas na sua integridade, da mesma forma como foram no passado. Sendo assim, estará plenamente justificada a utilização dos andares superiores, com a instalação de órgãos públicos municipais.

O andar térreo, com a sensibilidade que caracteriza o atual prefeito e o presidente da Câmara, poderá ser restaurado, resgatando a importância do famoso hall de entrada, e das plataformas e trilhos da Gare, por onde passou grande parte do desenvolvimento de Bauru. Ali poderão fluir a cultura, o lazer, o turismo ferroviário, exposições permanentes e um local nobre para a realização de eventos. Um equipamento público onde possa haver interação da população com uma de suas mais importantes e imponentes edificações históricas.

 A Associação de Preservação Ferroviária e de Ferromodelismo de Bauru (APFFB) e a Associação dos Amigos dos Museus de Bauru (AMB) estão dando o total aval para o prosseguimento da intenção já manifestada pela aquisição. Ela não poderia vir em melhor momento. Com a união dos esforços de todos nós, com certeza, quem sairá ganhando será nossa Bauru.

O autor, Ricardo Bagnato, é engenheiro, integrante da Associação de Preservação Ferroviária e Ferromodelismo de Bauru, da Associação Amigos dos Museus de Bauru, do Conselho Municipal de Cultura de Bauru e do Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru