Por uma vida normal, os deficientes físicos têm buscado, nos últimos tempos, a inserção em diversos setores da sociedade. Muitos não se contentam em conquistar espaço apenas no mercado de trabalho. Além de satisfação profissional, eles tentam alcançar a felicidade naquilo que, segundo a narrativa bíblica, nem a traça nem a ferrugem consomem: o amor.
Há bastante tempo, Tom Jobim já alertava: “É impossível ser feliz sozinho”. Os deficientes conhecem bem essa máxima. Nas entidades que atendem esse público, é comum encontrar casais enamorados.
Muitos desses pombinhos se arriscam a alçar vôos mais altos e chegam a oficializar a união perante a sociedade - aquilo que os antigos costumavam chamar de enlace matrimonial, modo rebuscado de dizer casamento. Alguns são ainda mais destemidos.
Além de ajuntar as escovas de dente, encaram também o desafio de ser pais. Mas alguém pode estar se perguntando: “Numa época tão atribulada como a nossa, quem, em sã consciência, teria coragem de empreender tarefa tão complexa? Afinal, criança chora, faz birra, xinga, fica doente, suja as fraldas, tem fome, dá gastos...”
Se crianças não dessem trabalho, é provável que não houvesse atualmente tantos casais optando por não ter filhos. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, entre 1996 a 2006, o percentual de casais sem filhos em relação ao total dos arranjos familiares aumentou de 13,1% para 15,6%.
Mesmo diante de tais fatos, os casais de deficientes ainda topam se “arriscar” nessa difícil missão? “Eu imaginava que as crianças dariam trabalho, mas meu sonho sempre foi me casar e ter filhos”, conta a dona de casa Yara de Lima, 44 anos. Ela e o marido, o artesão Nelson Rosa de Lima Júnior,43 anos, são deficientes visuais. Os dois se conheceram enquanto freqüentavam Lar Santa Luzia para Cegos, em Bauru.
“Antes de conhecer o Nelson, eu não queria saber de namorar ninguém. Eu achava que ele não me aceitaria”, explica Yara, que teve glaucoma aos 17 anos de idade. Nelson tem 17 graus de miopia e apresenta dificuldades para enxergar de longe.
Os dois se casaram em 1988 e tiveram dois filhos, Alexandre, hoje com 18 anos, e Leandro, 15. “Eles nunca nos deram trabalho e sempre nos aceitaram do jeito como somos”, garante Nelson. Para cuidar dos filhos, o casal contou com apoio da mãe e da irmã de Yara.
“As duas foram como ‘segundas mães’ para meus meninos”, afirma. Quem também contou com o apoio da família para cuidar dos filhos foi o ajudante de serviços-gerais Raeder de Oliveira, 33 anos, casado com Ismeri Donaria Martins de Oliveira, 36 anos.
Ambos são deficientes auditivos e trabalham no Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP), mais conhecido como Centrinho. Eles estão juntos desde 1999 e têm dois filhos, Bianca, 8 anos, e Bruno, 6 anos. “Minha mãe costumava ficar por perto, dia e noite, para nos ajudar a olhar as crianças. Não desgrudava de nós um minuto sequer”, afirma Raeder.
Apoio familiar
O ajudante de serviços-gerais Tiago Henrique Soares, 26 anos, também teve apoio da mãe, a auxiliar de enfermagem Cláudia Regina Soares da Silva, 42 anos, para cuidar da filha Sara, 2 anos.
Tiago e a esposa, Ana Lúcia Sanches Soares, 30 anos, têm perda profunda de audição. Quase não escutam e têm dificuldades para pronunciar sons. Sara, por sua vez, ouve e fala perfeitamente (sobretudo se levarmos em conta de que se trata de uma criança pequena).
Além de se comunicar por sons, Sara é capaz de compreender a pronúncia dos pais (muitas das palavras que eles dizem são incompreensíveis para a maioria de nós). Ela também já consegue se comunicar com eles pela linguagem de sinais. Inclusive, ela é capaz de “cantar” utilizando gestos.
Porém, o fato de Sara ter uma pronúncia perfeita acaba criando uma pequena barreira de comunicação entre ela e os pais. Devido à perda de audição que os dois têm, não conseguem captar certas freqüências de som.
Com isso, ficam às vezes sem entender o que a filha tenta lhes dizer. “Por isso é importante a família estar por perto, para ajudar. Mas é preciso lembrar que pai e mãe não são eternos. O casal precisa aprender a se caminhar sozinho”, acredita Cláudia. Quando Sara era bebê, Tiago e Ana foram presenteados com duas babás eletrônicas, que lhes avisavam se algo de errado estava ocorrendo com a menina.
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Especialista recomenda cautela aos casais com o desejo de ter filhos
A psicóloga Salimar Destilac Sandim Demétrio, que atua na Casa Caracol - programa voltado ao atendimento de famílias de deficientes auditivos ligado ao Centro de Pesquisa Audiológica do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP) - recomenda cautela aos casais de deficientes que desejam ser pais.
“Um casal de surdos, dependendo do tipo de perda que tiverem, podem precisar de uma terceira pessoa por perto para ajudar nos cuidados com a criança”, afirma.
Ela alerta, também, que as pessoas que sofrem de limitações ocasionadas por questões genéticas devem estar conscientes de que poderão ter filhos deficientes. “O importante, nesses casos, é o casal buscar as causas do problema e refletir se está de fato preparado para encarar essa situação”, diz Salimar.
De acordo com ela, o fato de uma criança que ouve normalmente conviver com pais surdos (que, muitas vezes, têm dificuldades para falar) não significa que terá prejuízos em sua fala. “No começo, ela pode até pronunciar as palavras de maneira errada. Com o tempo, porém, irá aprender a falar corretamente, desde que tenha um modelo ouvinte por perto”, explica.
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Medo
O telefonista bauruense André Luiz Banhos, 52 anos, nasceu com malformação nos olhos e acabou perdendo a visão aos 20 anos de idade. Aos 25, casou-se com a também deficiente visual Miriam Cristina Rocha. “Meu sonho sempre foi constituir família e me realizar como as demais pessoas”, explica ele.
Mais uma espécie de medo passou a inquietá-lo nessa época. “Por um lado, eu ficava cismado com essa história de ser pai. Como eu faria para educar meu filho de modo que ele trilhasse o caminho do bem. Hoje em dia existem tantos perigos no mundo”, diz.
O grande temor que André tinha antes de o filho nascer era que o garoto “herdasse” seu problema de visão. “Sabe... fiquei bastante cismado. Não que eu achasse que ele não fosse virar sozinho. Apesar de minha deficiência, levo uma vida normal. Mas nenhum pai gosta de ver o filho sofrer ou passar dificuldades”, justifica.
Antes do nascimento do filho, ele chegou a consultar um geneticista para saber das possibilidades dele vir a ter problemas de visão. “Aí, o médico me garantiu que não haveria perigo”, conta. Hoje em dia, André está separado da primeira esposa, que se mudou com o filho Felipe Roberto, 15 anos, para Cubatão, na Baixada Santista.
O telefonista voltou a se casar - afinal, é impossível ser feliz sozinho. A mulher atual de André se chama Eva Lúcia, 50 anos. Ela possui visão normal. “No começo, achei que o fato de ela enxergar representaria um empecilho para nossa relação. Hoje, vejo que esse medo era um monte de baboseiras”, afirma.